terça-feira, 14 de março de 2017

DO PERFIL DOS ALUNOS PARA O SÉC. XXI

Tendo terminado ontem o período de consulta pública do “Perfil dos Alunos para o Sé. XXI” começam a ser conhecidas algumas apreciações de natureza mais institucional sobre a proposta do ME.
Uma primeira referência à posição expressa pela Sociedade Portuguesa de Matemática que segundo o que se encontra no Público parece arrasadora do documento.
Entende que não promoverá “reais possibilidades de aprendizagem ao longo de todo o seu percurso escolar”. As suas concepções, bem conhecida desde que foi presidida por Nuno Crato de quem também foi um sólido apoio enquanto ministro assentam na obsessão pela medida, na construção de um currículo prescritivo, extenso e normativo em nome da velha retórica da exigência e do rigor que não vê nesta proposta sem que se perceba muito bem porque pois muito ainda falta.
Assim, expressa uma posição de fé “Esta proposta, bem como as alterações curriculares que dela podem vir a decorrer, (sublinhado meu) encerram o perigo de conduzir as escolas a actividades pedagógicas desorganizadas e sem conteúdos claros, fruto de uma imposta doutrinação metodológica”.
Entende, pois, que “é um documento pouco claro”, com “princípios vagos” e que “não traduz a evolução moderna do conhecimento sobre a aprendizagem e o ensino”. São princípios que estiveram “em voga” no tempo em que a educação era má concluem.
O preconceito e o modelo curricular que defende não permite à SPM perceber que os “princípios vagos” que que refere são os mesmos que informam diferentes modelos curriculares implantados ou em mudança noutros países longe de possuírem sistemas educativos sem qualidade.
Nada de novo, trata-se de uma posição que tem pouco a ver com currículo e mais com um modelo de educação, de sociedade e de escola que normaliza e selecciona através da medida, quase que exclusivamente centra da em resultados e em saberes instrumentais não importa ao serviço de que pessoa.
Por outro lado, o Conselho de Escolas divulgou também uma apreciação que em síntese se pode referir como de concordância genérica com os princípios enunciados, que nem sequer são novos e com o modelo de educação que os informa,
Chama no entanto a atenção para o processo de mudança, calendários e oportunidade e para um conjunto de questões de natureza mais funcional de que relevam “Que alterações se imporão, ao nível dos planos curriculares e da gestão do currículo, que permitam desenvolver as competências previstas no documento?”, “que modelos de avaliação dos alunos se aplicarão para avaliar e certificar a novas competências?”, “Que alterações se introduzirão nos tempos e espaços de aula, na organização e no funcionamento das turmas?”; “que alterações serão introduzidas na formação inicial e que formação contínua está prevista para os actuais docentes, para enfrentarem esta nova abordagem educativa?”
Este foi justamente o sentido de umas notas que aqui coloquei sobre o Perfil dos Alunos para o Séc. XXI e que retomo.
Quando no Séc. XX se começou a falar de que os alunos deveriam saber utilizar diferentes textos e linguagens, de que deveriam saber aceder a informação e saber comunicar,
de que deveriam aprender a relacionar-se, a interagir e a cooperar,  de que deveriam aprender a raciocinar e a resolver problemas, de que deveriam desenvolver pensamento crítico e pensamento criativo, de que deveriam ser autónomos e com formação pessoal adequada, de que os alunos deveriam aprender a promover o seu bem-estar e saúde, de que deveriam desenvolver sensibilidade estética e artística, de que deveriam aceder ao saber técnico e domínio de tecnologias, de que deveriam ter consciência e domínio do corpo, de que a escola deveria ser mais do que a simples transmissão de conhecimentos, de que se deveriam desenvolver projectos interdisciplinares promovendo a articulação e integração de conteúdos de diferentes disciplinas, de que se deveria promover a educação para a cidadania e a formação cívica, de que os testes não deveriam constituir a única forma de avaliação, de que deveriam ser valorizadas as diferentes disciplinas e equilibradas as suas cargas horárias pareceu-me bem.
Bom, o caminho tem sido o que conhecemos e agora que chegámos ao Séc. XXI voltamos a uma nova formulação destas intenções. Bem, mais uma vez, agora no Séc. XXI, … parece-me bem.
Tenho, no entanto, algumas dúvidas pequenas de que deixo alguns exemplos.
Tudo isto será desenvolvido com que calendário e metodologia de mudança?
Tudo isto será desenvolvido com que estabilidade e perspectiva de consistência no tempo?
Tudo isto será desenvolvido com que organização curricular, conteúdos e cargas horárias, por disciplina e globais?
Tudo isto será desenvolvido com que quadro de autonomia?
Tudo isto será desenvolvido com que dimensão das turmas e das escolas? Eu sei que nem todas são excessivamente grandes mas algumas são.
Tudo isto será desenvolvido com que ajustamento em práticas, capacidade e recursos de promover diferenciação para acomodar a diversidade dos alunos e promover um menor peso dos manuais no trabalho de alunos e professores?
Tudo isto será desenvolvido com que modelos e dispositivos de avaliação de alunos, professores e escolas?
É o que ainda falta saber.

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