quinta-feira, 28 de maio de 2015

FORMAÇÃO SUPERIOR E EMPREGO

Numa brevíssima síntese ficamos a saber que numa década Portugal tem dez vezes mais inscritos em cursos de mestrado, que existem pessoas com grau de mestre no desemprego e ou com problemas de empregabilidade associadas à área de formação e que o estatuto remuneratório dos diplomadas é muito significativamente superior ao de pessoas com habilitações até ao ensino secundário.
Algumas notas.
O aumento exponencial da procura de mestrados radica em vários fenómenos. Em primeiro lugar e desde logo porque o desenvolvimento das comunidades exige mais e melhor qualificação.
Em segundo lugar é de considerar que a chamada Reforma de Bolonha encurtou as licenciaturas, retirando-lhes valor, proporcionando valores muito mais simpáticos do número de pessoas com ensino superior e minimizando os custos públicos com o ensino superior pois o grau seguinte, mestrado, é suportado pelos estudantes e famílias.
Acontece ainda que, por um lado pela desvalorização da licenciatura, passando a três anos o que se fazia em cinco, levou a que muita gente entendesse continuar a estudar para além da licenciatura, por outro lado, existem áreas de formação em que o requisito para o exercício profissional é de cinco anos de formação de base pelo, obrigatoriamente qualquer candidato a essas áreas terá de fazer licenciatura e mestrado. É o caso da minha área de intervenção, realizei uma licenciatura de cinco anos que me habilitou para a profissão e os meus colegas mais novos têm de realizar licenciatura e mestrado para acederem aos cinco anos de formação inicial exigidos.
Ainda em matéria de demografia importa salientar que nos últimos anos estamos a assistir a um preocupante abaixamento da procura de formação superior que alguns estudos associam às dificuldades das famílias e às percepções sobre empregabilidade e precariedade.
De novo retomo a ideia de que isto assenta em perigosos equívocos.
O primeiro, radica no discurso recorrentemente difundido, ampliado por alguma imprensa preguiçosa, de que, dada a enorme taxa de desemprego de jovens com qualificação superior, o investimento numa qualificação superior não compensa pois não existe mercado de trabalho, alguns empregos que surgem são precários e mal pagos e muita gente qualificada está a ser empurrada para fora por falta de futuro cá.
No trabalho de hoje, uma das peças do trabalho do Público titula "Número de mestres no desemprego disparou quase 30 vezes em sete anos". Quando analisamos os números percebe-se que os mestres representam 1.7% dos desempregados registados. Elucidativo.
No que se refere à diferença  significativo no estatuto salarial mostra, como sempre afirmo, que estudar compensa. Aliás, vários relatórios, da OCDE, por exemplo, mostram que Portugal é, justamente, um dos países em estudar mais compensa.
É claro que não podemos esquecer o altíssimo e inaceitável nível de desemprego entre os jovens, em particular entre os jovens com qualificação superior, obrigando tantos a partir à procura de um futuro que por cá não vislumbram mas esta questão decorre do baixo nível de desenvolvimento do nosso mercado de trabalho, de circunstâncias conjunturais e de erradas políticas de emprego e não da sua qualificação.
Neste cenário e como sempre afirmo, o discurso muitas vezes produzido no sentido de que "não adianta estudar" não colhe e não tem sustentação sendo, um autêntico tiro no pé de uma sociedade pouco qualificada como a nossa que, efectivamente e contrariamente à tão afirmada quanto errada ideia de que somos um país de doutores, continua, em termos europeus, com uma das mais baixas taxas de qualificação superior em todas as faixas etárias incluindo as mais jovens apesar das afirmações insustentáveis de Angela Merkel.
Conseguir níveis de qualificação compensa sempre e é imprescindível. Estudar e conseguir qualificação de nível superior compensa ainda mais.
Portugal não tem gente qualificada a mais, tem é desenvolvimento a menos. Temos também um mercado de trabalho que a cegueira da austeridade e do empobrecimento tem vindo a proletarizar e que não absorve a mão-de-obra qualificada, sobretudo jovem. Não podemos passar a mensagem de que a qualificação não é uma mais-valia.
É um tiro no pé.

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