quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

DE SHOT EM SHOT

De acordo com os dados conhecidos, tem vindo a verificar-se um decréscimo do número de portugueses a consumir bebidas alcoólicas embora se continue a verificar um nível muito elevado da quantidade de bebida ingerida, designadamente entre os jovens.
O consumo de álcool tem vindo a crescer alterando-se também os padrões de consumo, beber na rua (é bastante mais barato, e o consumo excessivo e rápido (binge drinking). João Goulão, presidente do Instituto da Droga e da Toxicodependência referia há pouco tempo que em termos de padrões de consumo, a embriaguez parece deixar de ser uma consequência do consumo excessivo para passar a ser um objectivo em sim mesmo. Este padrão tem vindo a ser sublinhado por diferentes estudos sobre os hábitos dos adolescentes e jovens portugueses, cerca de 80% dos jovens com 15 anos consomem álcool segundo um trabalho da Unidade de Alcoologia de Coimbra do IDT e em 2007 56% dos jovens com 16 anos inquiridos referiram o este tipo e consumos enquanto em 2003 o indicador era de 25%.
Um primeiro aspecto essencial prende-se com a facilidade de aquisição de cerveja ou outras bebidas em lojas de conveniência ou pequenos estabelecimentos de bairro a um preço bem mais acessível que nos estabelecimentos que frequentam na noite e recorrendo à “toma” simples ou com misturas ao longo da noite, comprida aliás. Esta venda processa-se com a maior das facilidades e sem qualquer controlo da idade dos compradores. No relatório do IDT hoje divulgado pode ler-se que em 2010 apenas foram desencadeados apenas 25 processos por venda de álcool a menores de 16 anos.
Muitos adolescentes, em estudos neste âmbito referem ainda a ausência de regulação dos pais sobre os gastos, sobre os consumos ou sobre as horas de entrada em casa, que muitas vezes tem que ser discreta e directa ao quarto devido ao “mau estado” do protagonista.
Como é evidente, já muitas vezes aqui o tenho referido com base na minha experiência de contacto com pais de adolescentes, não estamos a falar de pais negligentes. Pode haver alguma negligência mas, na maioria dos casos, trata-se de pais, que sabem o que se passa, “apenas fingem” não perceber desejando que o tempo “cure” porque se sentem tremendamente assustados, sem saber muito bem o que fazer e como lidar com a questão. De fora parece fácil produzir discursos sobre soluções, mas para os pais que estão “por dentro” a situação é muitas vezes sentida como maior que eles.
É preciso que a comunidade esteja atenta a estes adolescentes que, ilegalmente” consomem e aos seus pais que estão tão perdidos quanto eles.
Fala-se com frequência em alterar a legislação no sentido de apenas permitir o consumo aos 18 anos e a Câmara de Lisboa tem a intenção de limitar os horários das lojas de conveniência. No entanto, para além da adequada fiscalização parece-me importante a criação de programas destinados a pais e aos adolescentes que minimizem o risco do consumo excessivo.
A proibição, como sempre, não basta mas a extinção do IDT e os cortes anunciados nos programas e recursos para esta área não auguram nada de bom.

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