sexta-feira, 27 de abril de 2007

MENINOS PARA UM LADO; MENINAS PARA O OUTRO

Nos últimos dias fomos visitados pelo Professor Cornelius Riordan, sociólogo, que apresentou uma conferência no Instituto de Defesa Nacional sobre as vantagens das escolas só para rapazes ou só para raparigas.

Como nota prévia ao comentário que quero fazer, importa esclarecer que não discuto a legitimidade que informa a decisão de pais e encarregados de educação sobre as escolas que desejam para os seus filhos. Sendo certo que a liberdade de escolha é condicionada por múltiplos factores, também é certo que essa escolha pode assentar em critérios como público ou privado, dimensão, classe social predominante, laica ou religiosa, com farda obrigatória ou não, com formação de natureza militar ou não, com co-educação ou com separação de géneros, etc. Num esforço de alargamento de opções poderá colocar-se até a possibilidade de se desejarem escolas para alunos com excesso de peso que terão, naturalmente, um plano curricular reforçado no âmbito da actividade física e cuidados redobrados na alimentação ou escolas para qualquer forma de minoria para que, ideia peregrina, fiquem mais protegidas dos excessos da maioria, etc. Estas escolhas assentarão, necessariamente, no conjunto de valores, cultura, representações, expectativas, etc. assumidos pelos pais. Trata-se de algo que lhes assiste.

A questão mais substantiva e que justifica o comentário é a afirmação de que escolas separadas por género são melhores e alguma da sustentação aduzida. O Professor Riordan refere que mais de metade dos estudos não são conclusivos sobre os efeitos positivos, mas crê nas vantagens das escolas separadas. Uma outra justificação prende-se com a questão do assédio sexual que, segundo ele, terá estado na base da recente tragédia na Universidade Virgínia Tech !!! Para demagogia não está mal. Parece também que as políticas educativas promotoras da equidade nos géneros faliram porque o eminente Professor acha que o facto de as raparigas terem actualmente um maior acesso por exemplo ao ensino superior e, frequentemente, melhor rendimento académico, implicou a transformação dos rapazes “num grupo claramente em desvantagem” o que só se resolve se forem para escolas separadas. Não lhe ocorre um momento pensar na organização, qualidade e modelos dos processos educativos, certamente um pormenor. Parece ainda que a Senhora Hillary Clinton deve a sua bem-sucedida carreira à frequência de uma escola só para raparigas. Fantástico.

Do que tive acesso não me ficou claro como é que separando os géneros na sua formação se fomentam valores e modelos positivos e respeitadores das diferenças na relação entre ambos. Não me ficou claro quando deve começar e qual o eventual limite de educação separada. Começar no jardim-de-infância? Até ao ensino superior? Basta até ao secundário? Chega o básico? Não será melhor começarmos a pensar em mercado de trabalho também “diferenciado” como lhe chama o Professor Riordan? E que tal contar com consultoria afegã?

Não há saco para tanto reaccionarismo, mascarado de ciência.

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