domingo, 25 de setembro de 2016

O RISCO DA "RITALINIZAÇÃO" DOS MIÚDOS

Parece-me positivo que Relatório anual do Conselho Nacional de Educação “Estado da Educação 2015” chama a atenção para a questão do consumo de medicação por parte de crianças e adolescentes para alegados problemas de comportamento, hiperactividade, défice de atenção ou instabilidade.
Dadas as competências do CNE é importante que o faça. É um problema grave que muitas vezes aqui tenho referido bem como em outros espaços. Julgo que temos de insistir e recupero algumas notas.
Segundo o Relatório “Portugal –Saúde Mental em números 2015” da Direcção Geral de Saúde, também citado pelo CNE, as crianças dos 5 aos 14 anos consumiram 5 135 684 doses de metilfenidato, um psicofármaco. Um valor impressionante e altamente preocupante e que está em linha com os dados do Infarmed que tem alertado para o disparar do consumo do metilfenidato com os nomes correntes de Ritalina, Concerta ou Rubifen.
Face a este cenário e em diferentes intervenções públicas, especialistas como Mário Cordeiro, Gomes Pedro ou Ana Vasconcelos, têm revelado sempre uma atitude cautelosa e prudente face esta hipermedicação ou sobrediagnóstico e alertado para os riscos destas práticas que, aliás, não se verificam em todos os países. Este tipo de discurso, cauteloso e prudente, que subscrevo, contrasta com a ligeireza, que não estranho, de Miguel Palha que referia há algum tempo no Público as “centenas” de crianças que na sua clínica solicitam “diariamente” o fármaco.
Pedindo desculpa ela repetição de escritos anteriores, a forma como olhamos e intervimos face aos comportamentos que os miúdos mostram que de há uns tempos para cá uma boa parte dos miúdos e adolescentes parece ter adquirido uma espécie de prefixo na sua condição, o "dis", passam a "dismiúdos".
Se bem repararem a diversidade é enorme, ao correr da lembrança temos os meninos que são disléxicos em gama variada, disgráficos, discalcúlicos, disortográficos ou até distraídos.
Temos também as crianças e adolescentes que têm (dis)túrbios ou perturbações. Estes também são das mais diferenciadas naturezas, distúrbios do comportamento, distúrbio do desenvolvimento, distúrbios da atenção e concentração, distúrbios da memória, distúrbios da cognição, distúrbios emocionais, distúrbios da personalidade, distúrbios da actividade, distúrbios da comunicação, distúrbios da audição e da visão, distúrbios da aprendizagem ou distúrbios alimentares.
Como é evidente existem ainda os que só fazem (dis)parates e aqueles cujo ambiente de vida é completamente (dis)funcional ou se confrontam com as (dis)funcionalidades dem muitos contextos escolares, número de alunos por turma excessivo, currículos desajustados, falta de apoios, etc.
Pois é, há sempre um "dis" à espera de qualquer miúdo e senão, inventa-se, "ele tem que ter qualquer coisa".
De forma simplista costumo dizer que algumas destas crianças não têm perturbações do desenvolvimento ou dificuldades de aprendizagem, experimentam perturbações no envolvimento e sentem dificuldades na “ensinagem”.
Agora um pouco mais a sério, sabemos todos que existe um conjunto de problemas que pode afectar crianças e adolescentes, esses problemas devem ser abordados, se necessário com medicação, evidentemente, mas, felizmente, não são tantos as situações como por vezes parece. Inquieta-me muito a ligeireza com que frequentemente são produzidos "diagnósticos" e rótulos que se colam aos miúdos, dos quais eles dificilmente se libertarão e que pela banalização da sua utilização se produza uma perigosa indiferença sobre o que se observa nos miúdos. Aliás, é curioso perceber o que se passa noutros países, França, por exemplo, nesta matéria.
Inquieta-me ainda a ligeireza com que muitos miúdos aparecem medicados, chamo-lhes "ritalinizados", sem que os respectivos diagnósticos conhecidos pareçam suportar seguramente o recurso à medicação. A sobreutilização ou uso sem justificação do metilfenidato e de outros fármacos tem riscos, uns já conhecidos, outros em investigação.
Esta matéria, avaliar e explicar o que se passa com os miúdos e adolescentes, exige um elevadíssimo padrão ético e deontológico além da óbvia competência técnica e científica.
Não se pode aligeirar, é "dis"masiado grave.

sábado, 24 de setembro de 2016

DESPESA E INVESTIMENTO EM EDUCAÇÃO

O Professor David Justino, presidente do Conselho Nacional de Educação, num cenário de natureza partidária afirmou que a ideia de que “toda a despesa em educação é investimento” é “uma treta” pois parte “dessa despesa é desperdício, é ineficiência“.
Estou absolutamente de acordo, desperdício e ineficiência não podem ser evidentemente “investimento” em educação. Algumas das opções no âmbito da imprescindível requalificação do Parque Escolar são um bom exemplo.
Também pela mesma ordem de razões, defender “cortes na educação”, podemos chamar-lhes “desinvestimento“, com a convicção de que o sistema educativo fica com melhor qualidade e mais eficiente, argumento do Professor Nuno Crato, é “uma treta”.
Tomemos como exemplo a área da chamada “educação especial” e o que se lê no Relatório do CNE, hoje divulgado e a apresentar na próxima semana.
Entre 2010 e 2015 as escolas públicas, sublinho, as escolas públicas perderam perto de 70% dos técnicos que trabalhavam com alunos com necessidades educativas especiais. Lê-se que “Apesar do número de alunos com NEE ter aumentado no ensino regular, o número de técnicos afetos à educação especial[..] tem vindo a diminuir significativamente todos os anos".
Os alunos com necessidades educativas especiais, as suas famílias, os seus professores, não ficaram melhor com este “desinvestimento”, com este corte na “despesa”.
O Professor David Justino falou ainda da importância da qualidade dos professores, desde a formação inicial ao seu recrutamento. Também subscrevo a sua preocupação.
Acho interessante, no entanto, a afirmação de que, leio no Público, que haverá entre 10 a 15% de docentes que nunca deveriam ter praticado a docência apesar de reconhecer, obviamente, que não são todos iguais. Questiona mesmo a destruição provocada por um mau professor numa carreira de 30 anos.
Estamos de acordo Professor David Justino, há pais que nunca deveriam ser pais, há professores que nunca deveriam ser professores, há psicólogos que nunca deveriam ser psicólogos, há decisores políticos que nunca deveriam ser decisores políticos. Neste último caso e numa apreciação sem fundamentação científica, estimo que sejam bem mais do que os 10 a 15% referidos relativamente aos professores. Temos, pois, que apostar na sua formação e melhorar a forma de recrutamento  para evitar o grau de destruição que a desqualificação possa produzir.
Eu sei que num espaço com audiência partidária num país em que a educação, como várias outras matérias, foi capturada pelos interesses da partidocracia, as afirmações produzidas têm sempre alguma “elasticidade”, por assim dizer, mas ...
É como este espaço e, por isso, aqui ficam estas notas.

A POBREZA E DESIGUALDADE

O “opinion maker” Henrique Monteiro não desiste de vender regularmente a sua agenda. Não é estranho, cada um serve os interesses que lhe servem.
Em texto de ontem no Expresso entretém-se a discutir desigualdade e pobreza para publicitar o que diz ser a leitura “correcta”.
Diz Henrique Monteiro que um país é desigual porque é pobre pelo que basta criar riqueza para que se minimize a desigualdade.
Henrique Monteiro sabe que não é assim mas nada que o incomode evidentemente, a sua certeza é a que prevalece.
Muitíssimos relatórios e trabalhos nacionais e internacionais, de origens como a OCDE, Banco Mundial, FMI, etc. demonstram que, como é óbvio, não basta criar riqueza para minimizar de forma séria a desigualdade.
As lideranças económicas, os interesses dos mercados, os modelos políticos de desenvolvimento que se orientam para resultados e mercados e não para pessoas, promovem riqueza sem que a sua distribuição tenha efeitos sérios na desigualdade social. Aliás, é claro que a distribuição da riqueza criada quer em países mais ricos quer em países mais pobres, mostra justamente que a esmagadora maioria da riqueza criada continua concentrada nas mãos de uma pequena minoria.
Não é o contrário.
Claro que para Henrique Monteiro e para a opinião que quer construir é preciso insistir recorrentemente em deturpações esperando que pela sua repetição se tornem em algo que se aceita como verdadeiro.
É um clássico em comunicação política e Henrique Monteiro sabe-a toda.

sexta-feira, 23 de setembro de 2016

DURÃO, O SALVADOR

Caro Dr. Durão Barroso, eu acredito em si. Existe uma enorme diferença entre banksters, gangsters e dealers. O Senhor não iria frequentar lugares tão mal afamados e com pessoas más.
Aliás, está tudo muito bem explicado “O meu trabalho será promover uma cultura de responsabilização, ética e transparência no banco. Não posso ser responsabilizado por coisas do passado. Acho que é perfeitamente aceitável do ponto de vista ético e moral trabalhar para o Goldman Sachs". Nem mais, só não compreende quem por má-fé não queira .
Eu sei que o Sr. Dr. Durão Barroso fará tudo o que estiver ao seu alcance para que todos se portem bem e não façam asneiras. O mundo precisa de mais pessoas como o Senhor, preocupado, atento e com vontade de espalhar o bem e a justiça.
Eu acredito em si. Felicidades na sua missão salvífica.
Agora vou escrever ao Pai Natal. Gosto sempre de o fazer cedo porque ele tem muito trabalho e assim vê o que lhe peço com mais calma. 

PS - Agora mais a sério mas mais indignado ainda após a divulgação de hoje pelo Público da promiscuidade de Durão Barroso e os seus patrões (de há muito) da Goldman Sachs. O despudor e a delinquência ética batem no fundo.

DAS TURMAS COM ALUNOS COM NEE

De acordo com o resultado de um inquérito realizado pela Fenprof junto das escolas existirão cerca de 8 000 turmas do Ensino Básico com mais do que dois alunos com necessidades educativas especiais.
O inquérito parece também evidenciar a enorme dificuldade ou impossibilidade das escolas cumprirem a recente decisão do ME de apenas reduzir o número de alunos por turma quando os alunos com NEE passam mais do que 40% por cento do tempo lectivo na sua turma.
Já escrevi várias vezes sobre esta questão e sobre esta decisão recente.
Apenas uma nota para reafirmar que o cenário de grupos commais do que dos alunos com NEE são uma realidade que se verifica logo na frequência do jardim-de-infância.
Sem autonomia real das escolas, sem os recursos adequados, professores, professores especializados, técnicos e assistentes operacionais e sem dispositivos de regulação e supervisão do trabalho desenvolvido, a defesa de uma educação de qualidade e inclusiva é retórica e, evidentemente, uma (quase) impossibilidade.
Como muitas vezes afirmo existem, muitos alunos necessidades educativas especiais que não estão incluídos, “integrados”, estão “entregados”, por várias razões e quase sempre não é por dificuldades próprias.

PS - O relatório do CNE, hoje (dia 24) conhecido é elucidativo sobre os recursos afectos a este universo.

FALEMOS DO AFONSO

Falemos do Afonso

O Afonso é uma criança tranquila e sem dificuldades em estar com adultos ou com colegas embora não se envolva em brincadeiras com eles nos espaços de recreio.
Mantém-se sem esforço e tranquilo no seu lugar a realizar as tarefas de aprendizagem que lhe são propostas embora não consiga cumpri-las sem ajuda.
O Afonso, não participa activamente nas actividades lúdicas e não se revela muito motivado para tal embora assista sem dificuldade à sua realização.
É de registar que apesar da idade o Afonso se revela ainda dependente para actividades básicas que as crianças da sua idade realizam de forma autónoma. Tal facto implica que por vezes o ajudam, naturalmente, em algumas tarefas que lhe causam mais dificuldade.
Os pais comparecem habitualmente nas reuniões para que são convocados, ainda revelam dificuldade em aceitar a situação, parecem fazer algum esforço de envolvimento e apoio ao Afonso, mas queixam-se frequentemente de obstáculos e de falta de ajuda.

Falemos ainda do Afonso mas de outra forma

O Afonso é uma criança com paralisia cerebral, calma e que reage bem quando é interpelado por adulto ou colegas mas sem capacidade de comunicação e recorrendo ao computador para a aprendizagem acompanhando os colegas no que aprendem.
Devido às suas enormes dificuldades motoras, usa cadeira, necessitando de permanente ajuda para deslocações. Quando alguém colabora na deslocação o Afonso gosta de ficar a assistir às brincadeiras dos colegas no recreio. Lamentavelmente faltam os recursos que ajudem o Afonso
O professor do ensino especial, devido ao número de casos, apoia o Afonso durante um tempo muito inferior ao que seria necessário.
Apesar de todas as dificuldades o Afonso tenta realizar as mesmas actividades de aprendizagem dos colegas o que é difícil sem a ajuda necessária sendo que também o trabalho do professor da sua sala fica difícil sem ajuda.
As dificuldades motoras do Afonso tornam-no bastante dependente e a falta de recursos humanos para o apoiar complica seriamente o seu dia-a-dia na escola.
Os pais, embora sempre presentes, revelam-se muito ansiosos e reivindicativos de mais apoios e ajudas para o Afonso que a escola não tem capacidade para providenciar.

Falemos ainda mais um pouco do Afonso.

O Afonso certamente não percebe porque não tem a ajuda e o apoio que precisa para que se cumpra o seu direito à educação e não à colocação na escola.
Os pais do Afonso talvez não compreendam porque não tem o seu filho em idade de escolaridade obrigatória a ajuda e o apoio que precisa para que se cumpra o seu direito à educação e não à colocação na escola.
Eu, eu tenho a certeza de que a educação inclusiva e a equidade em educação não decorrem de uma moda ou opção científica, são matéria de direitos pelo que devem ser assumidas através das políticas e discutidas, evidentemente, na sua forma de operacionalizar face á complexidade das situações  e á dimensão finita dos recursos. Aliás, poderá afirmar-se, citando Biesta, que a história da inclusão é a história da democracia, a história dos movimentos que lutaram pela participação plena de todas as pessoas na vida das comunidades, incluindo, evidentemente, a educação.

TERRA DE TROCA-TINTAS

PS e PSD recuam e admitem discutir dinheiro público para os partidos

Passos Coelho em 2014 vs. Passos Coelho em 2016


Nos meus tempos de gaiato, a avó Leonor, uma das mulheres mais fantásticas que conheci, com a mais-valia de ser minha, a minha avó, quando nós caíamos em alguma asneira e tentávamos as esfarrapadas desculpas que a imaginação, ou a falta dela, ditavam ou ainda, quando as pequenas ou grandes mentiras não saíam bem, tentava compor um ar severo, desmentido por uns olhos claros infinitamente doces, e dizia, “não sejam troca-tintas”.
Não me lembro se alguma vez lhe perguntei se sabia a origem da expressão, mas nestes tempos que vamos vivendo, com esta gente que de há décadas vai ocupando as lideranças sociais, politicas e económicas, lembrei-me da avó Leonor e dos troca-tintas.
Terra de troca-tintas.

quinta-feira, 22 de setembro de 2016

A HISTÓRIA DO PROTEGIDO

Nunca alguma criança tinha sido tão desejada como aquela. Quando ele nasceu, o Protegido, os pais acharam que era sua obrigação fazer com que nada do que se passava no estranho e difícil mundo actual o perturbasse. O Protegido foi crescendo quase sem sair de casa. Tudo o que achavam que ele queria ou precisava lhe era oferecido. 
Foi para uma escola muito bem escolhida, onde só andavam outros Protegidos. O seu mundo variava entre a casa, o carro, a escola e, de vez em quando, a casa de outro Protegido. Assim foi vivendo sem outros horizontes que não os definidos pelos seus atentos pais.
Um dia, tinha o Protegido aí uns treze ou catorze anos, o Avô de longe veio visitá-lo. Só o tinha visto uma vez, era ainda pequeno. Sem dizer nada aos pais, o Avô foi com o Protegido passear pela rua. O Protegido estava espantado, nunca tivera oportunidade de ver assim a rua. Viu rapazes da sua idade no parque a brincar e jogar à bola, ele que só jogava futebol no seu quarto com a playstation. Viu rapazes e raparigas a entrar no cinema para ver o filme que ele via no computador ou no plasma em casa. Viu muitas coisas que não sabia fazerem parte da vida de gente da sua idade. Cansados, sentaram-se num banco do jardim. O Protegido mantinha-se perplexo e calado. 
Num banco mais à frente, um Rapaz e uma Rapariga namoravam indiscretamente. O Protegido não tirava os olhos deles. Quando se levantaram, passaram ao pé do Protegido e do Avô. O Rapaz, olhou para o Protegido e disse-lhe “Acho que te conheço da minha escola, como é que te chamas?”
Infeliz, disse o Protegido.

A GORDURA QUE JÁ NÃO É FORMOSURA

O estudo Global Burden of Disease 2015 que avaliou em 188 países o nível de cumprimento das medidas no âmbito da saúde contidas nos Objectivos de Desenvolvimento Sustentável e ontem divulgado pela Lancet traça um retrato globalmente positivo de Portugal, colocado em 22º lugar.
No entanto, apesar dos progressos existem áreas de preocupação, caso da obesidade infantil.
Recordo que estudos, creio que de 2014, do Instituto de Saúde Pública da Universidade do Porto, mostram que aos 4 anos mais 87% das crianças ultrapassa já “os valores toleráveis de sal” para a sua idade. Crianças com dois e “têm consumos alimentares nada saudáveis”, aos dois anos, por exemplo
Neste universo, o bem estar dos miúdos e os seus hábitos alimentares, segundo um estudo publicado também na Lancet em 2013, em Portugal 28,7% dos rapazes, 27,1% das raparigas, 63,8% dos homens e 54,6% das mulheres evidenciam excesso de peso, enquanto a obesidade afecta 8,9% dos rapazes, 10,6% das raparigas, 20,9% dos homens e 23,4% das mulheres. Estes indicadores vão na linha dos que a OMS tem divulgado, sobretudo no que respeita à população mais nova.
Na Europa, mais de 27% das crianças com 13 anos e 33% com 11 têm excesso de peso. Portugal é um dos países com indicadores mais inquietantes, 32% das crianças com 11 anos têm peso a mais.
Nada de novo, recordo um estudo, “EPACI Portugal 2012 – Estudo do Padrão Alimentar e de Crescimento na Infância”, segundo o qual, 31.4% das crianças portuguesas entre os 12 e os 36 meses apresentam excesso de peso e 6.5% situações de obesidade. Os dados são preocupantes mas não surpreendem indo no mesmo sentido de dados envolvendo outras idades.
A Direcção-Geral de Saúde e o ME têm vindo a determinar que nas escolas alimentos hipercalóricos, como doces ou bolos, não sejam expostos, devendo ficar visíveis aos olhos dos alunos os alimentos considerados mais saudáveis em como estão em curso medidas no sentido de baixar a publicidade a alimentos e bebidas com maior carga calórica.
Recordo ainda um estudo divulgado de 2015 da Faculdade de Medicina da Universidade do Porto, encontrou 17% de rapazes e 26% de raparigas de quatro anos, sublinho, quatro anos, com excesso de peso e obesidade e níveis de colesterol elevados, um cenário verdadeiramente preocupante e de graves consequências futuras.
Creio ainda de sublinhar que estudos realizados em Portugal mostram que a obesidade infantil é já um problema de saúde pública, implicando, por exemplo, o disparar de casos de diabete tipo II em crianças.
Apesar de parecer uma birra ou teimosia acho sempre importante sublinhar a importância que deve merecer a questão dos hábitos alimentares e o combate ao sedentarismo, sobretudo nos mais novos.
As consequências potenciais deste quadro em termos de saúde e qualidade de vida são muito significativas, quer em termos individuais, quer em termos sociais. Assim, e como já tenho referido, um problema de saúde pública desta dimensão e impacto justifica a definição de programas de prevenção, educação e remediação que o combatam. Provavelmente, teremos algumas reacções contra o chamado “fundamentalismo nos hábitos individuais” mas creio que são também de ponderar as implicações colectivas e sociais do problema.

No entanto, como sabemos, o excesso de peso e os riscos associados não serão, para a esmagadora maioria das miúdos e graúdos nessa situação, uma escolha individual, é algo de que não gostam e sofrem, de diferentes formas, com isso.

OPÇÕES

Numa entrevista interessante ao DN, Marina Costa Lobo revela um estudo comparativo com 17 países europeus mais Israel e Austrália segundo o qual e com base no PIB Portugal está no topo do rendimento anual dos partidos políticos.
É ainda relevante saber que que Portugal está entre os cinco países em que partidos recebem mais financiamento público.
Não é menos relevante saber que PS e PSD são os únicos partidos a defender o fim dos cortes a que este financiamento tem estado sujeito. Como escrevi há dias, nas grandes causas PS e PSD entendem-se.
Sou dos que entendem que a democracia tem custos e que dinheiros públicos deverão ser empregues, com controlo, transparência e equidade como é óbvio, no apoio às actividades dos partidos justamente como forma de … promover a democracia.
Por outro lado, também entendo que os apoios financeiros privados a para a actividade política devem ser fortemente regulados e escrutinados porque como se sabe … não há almoços grátis.
Já não entendo que numa conjuntura como a que atravessamos PSD e PS tenham o atrevimento de defender a reposição das verbas cortadas no financiamento partidário.
São opções que, evidentemente, desqualificam a saúde ética da nossa democracia e, naturalmente os responsáveis pela decisão.
A questão é que nesta matéria, ética, também não se verifica reposição dos cortes verificadas.

AFINAL

Portugal foi o país da OCDE onde a carga fiscal mais aumentou nos baixos salários

Maldita realidade, sem ela tudo estaria tão bem.
Alguns recordarão repetidas afirmações do ex-Primeiro-ministro negando que o maior impacto das graves dificuldades decorrentes do seu fundamentalismo austeritário era sentido pela população com menos rendimentos.
É verdade que o aumento dos impostos começou ainda com Sócrates mas Passos Coelho e colaboradores realizaram uma notável tarefa.

quarta-feira, 21 de setembro de 2016

NAS GRANDES CAUSAS ENTENDEM-SE

Como assim se prova é possível estabelecer um consenso que envolva os dois grandes partidos da cena política desta pantanosa pátria nossa amada.
É sempre bom saber que nas grandes causas os maiores partidos entendem-se.
A austeridade, antes de chegar à vida da maioria das pessoas, atingiu a ética de boa parte da nossa classe política.

É TARDE MAS ...

... vale mais tarde que nunca. Passos Coelho já não procederá à apresentação pública de um monte de esterco produzido pelo Arquitecto Saraiva à cata de uns tostões à custa de um produto sórdido e da venda de valores que deveria observar.
A troca de afinidades terá que ficar para outras ocasiões, esta estava a correr demasiado mal.

PELA VISÃO ONLINE. "AS NOVAS TECNOLOGIAS AFECTAM O SONO DAS CRIANÇAS?"

Umas notas na Visão online sobre a presença das novas tecnologias na vida de crianças e adolescentes.

Acontece que durante o período de sono e sem essa regulação e acompanhamento familiar muitas crianças e adolescentes estarão diante de um ecrã, pc, tv ou telemóvel. Com é óbvio, este comportamento não pode deixar de ter consequências nos comportamentos durante o dia, sonolência, distracção, ansiedade e, naturalmente, o risco de falta de rendimento escolar num quadro geral de pior qualidade de vida.

AS REDES SOCIAIS. SOMOS DANADOS PARA O CONVÍVIO

No Público faz-se referência ao trabalho da Marktest, “Os portugueses e as redes sociais”,  segundo o qual os utilizadores portugueses das redes sociais, Facebook à cabeça,  lhes dedicam 91 minutos diários. É obra, somos mesmo um povo danado para o convívio.
Como utilizador deste universo, por isso estão a ler-me, a aparente apetência dos portugueses pelas redes sociais vem ao encontro da minha experiência, aliás, estimulante. Algumas linhas de agradecimento pessoal e um pequeníssimo alerta.
Na verdade, é entusiasmante a quantidade de pessoas que se me dirigem convidando-me para amigo e propondo-me a integração numa rede social. De facto, numa época em que me refiro com frequência ao isolamento em que muita gente parece estar, surpreende-me a disponibilidade solidária com que tanta gente encara o risco de eu estar sem, ou com poucos amigos.
A surpresa é tanto maior quando verifico que um número significativo dos convites vem de pessoas que não tenho ideia de conhecer de lado algum. E mais surpreendido fico com a generosidade com que somos presenteados com toda a espécie de informação sobre a vida dos nossos amigos num esforço notável para que nos sintamos próximos e por dentro, às vezes parece que estamos mesmo ali a partilhar o jantar ou a viagem, a conviver com a família. É bonito.
Já pensei que será gente que assumiu uma espécie de missão em regime de voluntariado na qual se empenham em oferecer amizade a eventuais necessitados. É bonito e cria uma ilusão de esperança na humanidade, afinal as pessoas continuam a empenhar-se na relação com o outro e a preocupar-se com a amizade, o lema é sempre ligados, sempre amigos.
Por outro lado, uma das fórmulas divulgadas "gostava de te adicionar como amigo" é particularmente feliz, eu acho. A ideia de ir somando amigos, chegando a centenas ou, quem sabe, a milhares, permite sonhos de popularidade e amizade nunca antes imaginados. Estou completamente rendido.
Por favor, não desistam de enviar a toda a gente, a mim também, as fantásticas mensagens que contêm os criativos e solidários "gostava de te adicionar como amigo". Também aprecio variantes como "tituxa enviou-te um Pedido de Amizade" ou até mesmo algumas mais “aconchegantes” que começam com qualquer coisa como “Meu bem, me chamo … e quero muito te conhecer”.
Um mundo assim, é um mundo diferente.
Bem-haja pela atenção.
Já agora, talvez fosse bom lembrar que esta atracção pelas redes sociais e pela promoção da amizade contém riscos importantes para crianças e adolescentes, o cyberbullying ou o isolamento, são apenas dois dos mais frequentes. É também razoavelmente claro que a presença assídua nas redes sociais por parte de muitos adultos pode esconder uma enorme solidão que se "mascara" relações sociais ... virtuais.
Também é interessante recordar que alguns estudos mostram o peso excessivo que estes comportamentos têm na vida de muitas pessoas e famílias, inibindo a relação interpessoal e criando constrangimentos à acção educativa. Curiosamente, crianças e adolescentes referem justamente estes aspectos face ao comportamento dos seus pais, como mostrou um estudo divulgado há pouco tempo nos EUA e que, aliás, aqui citei.
Na verdade e finalmente, em algumas circunstâncias, as redes sociais são tudo menos ... sociais.

terça-feira, 20 de setembro de 2016

A SAÚDE MENTAL DE CRIANÇAS E ADOLESCENTES

Dados do European School Survey Project on Alcohol and Other Drugs hoje conhecidos sugerem que 13% os jovens portugueses até aos 16 anos consome antidepressivos e tranquilizantes. O estudo envolveu 96043 jovens de 35 países, 3456 portugueses alunos de escolas públicas. O valor é impressionante, a média é de 8%.
Muitas vezes aqui tenho escrito sobre a questão grave da saúde mental de crianças e adolescentes portugueses que, do meu ponto de vista, tem sido uma área desvalorizada e um parente pobre das políticas de saúde pública. Acontece que os indicadores disponíveis apontam para maior número de casos e de crianças mais novas afectadas. Os dados agora conhecidos apontam nesse sentido.
Um estudo divulgado em 2015 realizado pela Faculdade de Psicologia e Educação da Universidade de Coimbra em colaboração com entidades estrangeiras apontava para que 8% por cento dos adolescentes portugueses que frequentam o 8.º e o 9 º ano apresentam sintomatologia depressiva e 19% estarão em risco de desenvolver a doença. O estudo contemplava também um programa de prevenção a promover em meio escolar, com a participação dos pais, que pareceu indiciar bons resultados.
Em Maio de 2014, o Expresso relatava que em 2013 se tinham registado cerca de 20 000 novas consultas de pedopsiquiatria, mais 30% que em 2011. Era um indicador preocupante e ainda mais preocupante pela inexistência de resposta adequada e acessível para muitas crianças e adolescentes.
Recordo também que em 2014 foi noticiada a interrupção dos apoios a crianças e adolescentes da região do Algarve pois o programa de que beneficiavam, Grupos de Apoio à Saúde Mental Infantil, que já tinha merecido prémios de boas práticas, foi suspenso em vez de ser generalizado. Esta suspensão foi obviamente sentida com grande inquietação por famílias e profissionais.
Em 2012 esteve em Portugal um especialista nesta área, Peter Wilson, que, naturalmente, referia a necessidade de que nas escolas e na comunidade próxima existam apoios aos professores, às famílias e às crianças com dificuldades emocionais, a única forma, entende, apoiado na sua experiência, de minimizar e ajudar neste tipo de problemas que, não sendo acautelados, têm quase sempre efeitos devastadores em termos pessoais e sociais. Segundo Peter Wilson, os estudos em Inglaterra sugerem a existência de três crianças com problemas do foro emocional em cada sala de aula pelo que o apoio é muito mais eficaz e económico prestado na escola ou na comunidade próxima a alunos, famílias e professores. Este entendimento é partilhado, creio, pela generalidade dos profissionais e famílias, também em Portugal e os dados conhecidos apontam nesse sentido.
Há algum tempo a imprensa referia a inexistência de camas nos serviços de pedopsiquiatria que possam acomodar adolescentes em tratamento o que leva a que em muitas circunstâncias adolescentes sejam internados em serviços de adultos o que na opinião dos especialistas pode ser uma experiência "traumatizante" sendo, aliás, contrárias às boas práticas de qualquer país civilizado em matéria de saúde mental.
Está nos livros e nas experiências que em situação de crise os mais vulneráveis, crianças e adolescentes, por exemplo, são, justamente, os mais sofredores com as dificuldades. Acresce que, actualmente, se verifica em muitos agregados familiares e em contextos escolares a emergência de discursos que pressionam os mais novos no sentido de atingirem a excelência nos resultados escolares ou em qualquer actividade “importante” pois será, dizem, a “única” forma de atingir um patamar de sucesso futuro.
Como se sabe e a experiência mostra, muitas crianças e adolescentes não suportam tranquilidade esta pressão o que se repercute no seu bem-estar e na sua saúde mental. Para complicar um pouco mais, ainda se verifica que algumas pessoas desvalorizam estes fenómenos, entendendo que é preciso ser exigente e bem-sucedido e não entendendo o sofrimento de algumas crianças e jovens.
Por outro lado é também conhecida a enorme dificuldade que muitas instituições que acolhem menores estão a passar dificultando a resposta com a qualidade bem como a possibilidade de responder a novas situações.
Os miúdos, nas famílias preferencialmente, ou nas instituições, necessitam de um aconchego, um ninho, uma qualidade de vida que os cuidadores, por diversas razões, não sabem, não querem, não podem ou não são capazes de providenciar. Tal cenário implica riscos fortíssimos de compromisso do seu futuro pelo que os apoios e resposta são fundamentais mas não podem passar apenas pela medicação.

Como o povo diz, é de pequenino que se torce o … destino.

DA DIFICULDADE NA REUTILIZAÇÃO DOS MANUAIS ESCOLARES


O editorial do Público levanta uma questão pertinente a partir do momento em que o ME disponibiliza gratuitamente manuais escolares, apenas os manuais, e exige a sua devolução de forma a garantir a sua reutilização.
Era claro que tal objectivo seria muito dificilmente atingido.
Quem tem mais do que um filho em idades próximas tem a perfeita consciência da dificuldade de reutilizar manuais com as óbvias e significativas consequências económicas.
A elaboração dos manuais escolares, um importante nicho de mercado, sempre considerou a sua não utilização. De facto, a quantidade e o tipo de trabalho que os alunos realizam no manual impede a sua reutilização. Acresce que as mudanças frequentes quer nos conteúdos curriculares, quer nos manuais aprovados nos diferentes agrupamentos e escolas são também um obstáculo à sua reutilização.
Neste sentido, a gratuitidade dos manuais escolares e a sua reutilização exigem um outro olhar sobre os manuais, considerando os conteúdos e a utilização. As práticas já desenvolvidas em muitas salas de aula e a experiência de outros sistemas educativos mostra que é possível apesar da evidente resistência dos donos do mercado do livro escolar.
Assim, e com tantas vezes tenho afirmado creio que o caminho a percorrer em matéria de manuais escolares deveria incluir estratégias que tentassem contrariar o que costumo designar por uma excessiva “manualização” do ensino que emerge de práticas pedagógicas pouco diferenciadas muito decorrentes de conteúdos curriculares demasiado extensos, prescritivos e normalizadores. Seria desejável atenuar a fórmula predominante, o professor ensina com base no manual o que o aluno aprende através do manual que o pai acha muito importante porque tem tudo o que professor ensina.
O número de alunos por turma é também um facto contributivo para este cenário. A anunciada redução do número de alunos por turma ao abrigo de uma verdadeira autonomia das escolas e dos professores, permitiria a alunos e professores um trabalho de pesquisa e construção de conhecimentos com base noutras fontes incrementando, por exemplo, a acessibilidade a conteúdos e informação diversificada que as novas tecnologias oferecem. Sem surpresa este entendimento é um dos eixos da reforma em curso na Finlândia.
A construção dos próprios manuais, tendo um outro papel no trabalho de alunos e professores pode evitar a sua utilização como suporte do trabalho dos alunos e, assim, não impedir a sua reutilização. Aliás, o mercado também é fértil em materiais como “cadernos de actividades”, “fichas”, “Cds”, etc. que são suportes para o trabalho dos alunos
A questão é que os manuais escolares constituem um importantíssimo nicho de mercado potenciado por esta enorme quantidade de materiais que os acompanham os manuais. Como exemplo é de registar que a gratuitidade dos manuais para o 1º ano envolve um montante de três milhões de euros. É um nicho de mercado com muito e peso os donos deste mercado dele não querem abdicar, recebam das famílias ou recebam do Estado.
Como é evidente, a resistência à reutilização é grande e dificulta o surgimento de outro tipo de manuais ou mesmo o seu abandono.
É também sabido que a reutilização de manuais é prática já verificada em muitos países.
Os manuais escolares são disponibilizados pelas escolas e devolvidos pelos alunos no final do ano lectivo ou da sua utilização. As famílias são responsabilizadas pelo seu eventual dano ou extravio e ficando, assim, com "folga" para aquisição de outros materiais, livros por exemplo, um bem com pouca presença em muitos agregados familiares.

segunda-feira, 19 de setembro de 2016

DA SÉRIE METE-ME ESPÉCIE. OS VOTOS DE POBREZA

Mete-me espécie a quantidade de gente que desatou a fazer votos de pobreza.
Os verdadeiros pobres que se cuidem, é concorrência desleal.

A ESCOLA DO JÚLIO

Sempre que se inicia um ano lectivo me lembro desta história.
Era uma vez uma escola do 1º ciclo onde andava um rapaz chamado Júlio. O Júlio já tinha uns doze anos mas tinha aprendido pouco, diziam as professoras. Não é que não fosse capaz, o problema é que, depois de em cada ano as aulas começarem, logo nas primeiras semanas, o Júlio deixava de aparecer na escola, acompanhava os pais na venda pelas feiras. No início de mais um ano, uns dias antes de as aulas começarem, uma das professoras da escola encontrou o Júlio e interpelou-o, “Júlio, este ano é que vai ser, tens de vir para a escola e ficar até ao fim”.
Diz o Júlio, do alto dos seus doze anos e com a sabedoria de alguns anos de feira, “Para a escola eu, Professora? Então eu nem sei ler nem escrever, venho para a escola fazer o quê?”.

A RETENÇÃO ESCOLAR ESTÁ A BAIXAR

A Direcção-Geral de Estatísticas da Educação e Ciência divulgou o Relatório “Perfil do Aluno 2014/2015 – Estatísticas Oficiais“.
No Público sublinhava-se o abaixamento da taxa de retenção e abandono considerando básico e secundário o que, evidentemente é uma boa notícia.
Por curiosidade fui verificar a distribuição dos níveis de retenção por anos de escolaridade no básico do ensino público pois, sem surpresa, o ensino privado tem resultados diferentes.
Quanto ao 1º ciclo, no 4º ano a taxa de retenção é de 2,5 mas no 2º e no 3º é 10.3 e 4.3% respectivamente.
Relativamente ao 2º ciclo, no 6º ano a taxa de retenção é de 16.4 e no 6º ano 9.5%.
No 3º ciclo temos no 7º ano 16.4, no 8º, 10.9 e no 9º, 11.4%.
Verifica-se assim que nos terminais de ciclo os resultados tendem a ser melhores que os verificados nos outros anos de escolaridade. Porquê? Os anos anteriores servem de filtro para que nos anos de exame os resultados da avaliação externa sejam diferentes? Estratégia educativa assente na ideia de que repetir promove sucesso?
Um outro dado que me parece importante é que apesar de prevalecer um habitual padrão de distribuição geográfica de maiores taxas de retenção por zonas periféricas ou interiores verifica-se que em muitos concelhos nestas zonas geográficas os resultados são melhores que o esperado.
É importante registar isto e sublinhar o que defendemos e a causa por que nos batemos a escola pode fazer e faz a diferença.
É verdade que a associação entre os resultados escolares dos alunos e variáveis de natureza sociodemográfica como meio social, económico e cultural, circunstâncias de vida, estilos parentais, etc. etc., está estabelecida de há muito.
Também sabemos que a escola faz, pode fazer a diferença, ou seja, o trabalho na e da escola e dos professores é um factor significativamente explicativo do sucesso dos alunos mais vulneráveis e capaz de contrariar o peso das outras variáveis que estão presentes nesses alunos.
Só que a escola envolve organização e recursos, clima e liderança, por exemplo, e também, evidentemente, o trabalho em sala de aula.
No entanto, mesmo este trabalho não depende apenas de variáveis individuais de cada docente, decorre também de um conjunto de políticas educativas que promovam a qualificação, a motivação e a valorização a diferentes níveis do trabalho dos professores.
Decorre de políticas educativas em matérias como currículos, autonomia real, sistema de organização e funcionamento, recursos humanos docentes, técnicos e funcionários, tipologia e efectivo de escolas e turmas, etc, só a para citar alguns exemplos contributivos para o maior ou menor sucesso educativo antes de entrar na sala de aula.

domingo, 18 de setembro de 2016

"PESSOAS COM DEFICIÊNCIA EM PORTUGAL"

Uma chamada de atenção para pertinência e actualidade da entrevista a Fernando Fontes no Observador. É o autor do trabalho “Pessoas com deficiência em Portugal”, da Fundação Francisco Manuel dos Santos e que há dias comentei aqui no Atenta inquietude. 
Na verdade, a vida de boa parte das pessoas com deficiência e das suas famílias é uma constante e infindável prova de obstáculos, muitas vezes intransponíveis, que tanto ampliam de forma inaceitável problemas decorrentes da sua condição como minimizam os seus direitos. 

GOSTEI DE LER A ENTREVISTA A DAVID LODGE

David Lodge desenvolve no seu trabalho um dos mais estimulantes e bem humorados retratos do nobre mundo da universidade. Para além de outras obras como a "Vida em surdina", "A Troca" e "O mundo é pequeno" são imperdíveis. 

Entrevista a David Lodge:Sexo, catolicismo e comédia


DA COLOCAÇÃO DE PROFESSORES. O SONHO IMPOSSÍVEL, SERÁ?

Para este mês o tema escolhido pelos autores do manifesto Pela Escola Pública é o concurso de professores.
Apesar de algumas décadas a trabalhar no universo da educação não tenho o conhecimento e a informação adequada para tecer algumas considerações pertinentes sobre este complexo universo.
Tenho mais presentes os efeitos múltiplos e muitas vezes gravosos de um processo que não deveria decorrer como decorre e há tempo demais. Também me parece que é difícil isolar a questão da colocação de de outras dimensões como, por exemplo, a autonomia das escolas.
Não querendo, no entanto, colocar-me de fora da reflexão até porque entendo que muitos dos problemas dos professores são também problemas de toda a gente apenas partilho o que talvez seja um sonho impossível.
A colocação de professores deveria conciliar uma gestão integrada dos recursos docentes com a autonomia real das escolas.
A colocação dos professores deveria garantir equidade, justiça e transparência.
A colocação de professores deveria estar ao serviço da estabilidade do funcionamento das escolas e não um contributo para a instabilidade.
A colocação de professores deveria ocorrer segundo um calendário que permitisse, de facto, que cada ano lectivo começasse com verdadeira normalidade e não a normalidade todos os anos afirmada e nunca verificada.
A colocação de professores deveria ter dispositivos de regulação e escrutínio que lhe garantissem independência, competência e rigor.
A colocação de professores deveria ser um processo com carga burocrática mínima e eficiência máxima.
A colocação de professores deveria ser também um contributo para a valorização da classe docente.
Será mesmo um sonho impossível?
Não seremos capazes de fazer melhor?

UMA BOA NOTÍCIA

Num tempo em que não abundam boas notícias sobre nós, portugueses, aqui fica uma e importante.

Sarampo e rubéola estão erradicados em Portugal

TIREM-ME DAQUI

Depois de tantos anos de discrição, tanto silêncio, porquê duas "entrevistas de fundo" e com conteúdos, no mínimo, controversos e com falta de sobriedade?
Será que, como é habitual na justiça em Portugal, o Juiz Carlos Alexandre se está a socorrer de um expediente para se afastar de um processo complexo, cheio de alçapões e infestado de tubarões, que não se percebe como irá acabar? 

sábado, 17 de setembro de 2016

GOSTEI DE LER A ENTREVISTA DA PROFESSORA LEONOR MONIZ PEREIRA

Gostei de ler a entrevista da Professora Leonor Moniz Pereira no Público. Ainda no rescaldo das grotescas e boçais opiniões do jornalista Joaquim Vieira sobre a prática de desporto por pessoas com deficiência, um discurso inteligente e conhecedor é importante.
Apenas acrescento o meu sonho, que os eventos desportivos de maior envergadura e relevo, pelo menos, se disputassem no mesmo período de tempo e para todos, mesmo todos, os desportistas e todas as provas. 
É possível, só depende de nós.

“A estrutura organizativa é um obstáculo à evolução do desporto adaptado”

MALDITA REALIDADE

Num trabalho da Fundação Francisco Manuel dos Santos, "Portugal Desigual", a apresentar publicamente na próxima semana, é elaborado um retrato sobre a desigualdade de rendimentos em Portugal nos últimos anos, os anos da crise.
Em termos médios, entre 2009 e 2014, os portugueses perderam 116€, 12%, de rendimento mensal.
No entanto, o grupo dos 10% mais pobres perdeu 25% do rendimento e os 10% mais ricos perderam 13% do seu rendimento. Dito de outra maneira e contrariamente à proclamação do velho slogan, “os ricos não pagaram a crise”.
Acresce que "os jovens com menos de 25 anos tiveram uma perda de 29% nos seus rendimentos o que como tantos de nós sabemos promove vidas precárias e inibe a construção de projectos de vida mobilizadores de futuro.
Talvez um dia, eu que sou um crente optimista nas qualidades do ser humano ainda consiga perceber a estranha convicção que boa parte da classe política com diferentes origens assume, sobretudo quando chega ao poder. Todo o seu discurso passa a assentar na ideia de que, “a realidade está errada, eu é que estou certo", ou seja, a "realidade passa a ser a projecção dos meus desejos”. Dito de outra maneira, assumem que a realidade não é ... real. O que pensam e o que afirmam é que está certo. Sempre.
Na verdade, esta gente, com mais ou menos habilidade, torturam dados, conhecimentos, informação e experiência e bombardeiam-nos sistematicamente até que, por exaustão ou acomodação, se convencem de que nos convenceram. A realidade, acreditam, rendeu-se, passou a ser exactamente aquilo que eles querem que seja.
O problema é que a maldita realidade teima em desmenti-los.
Alguns recordarão repetidas afirmações do ex-Primeiro-ministro negando que o maior impacto das graves dificuldades decorrentes do seu fundamentalismo austeritário era sentido pela população com menos rendimentos.
Muito provavelmente a fome e pobreza que tantos conheceram e conhecem inscrevem no recorrente discurso assente no papel redentor da pobreza e garante do céu.
Só para citar mais alguns dados, segundo a Cáritas Europa Portugal foi o país em que o risco de pobreza mais subiu em 2014 sendo que cerca de 25% de crianças estão nesta situação.
Mais de metade dos desempregados não acede a subsídio de desemprego. Foram cortados milhares de subsídios de abono de família e de outras prestações sociais como o rendimento social de inserção. Muitos milhares de famílias caíram na insolvência sobretudo em consequência do desemprego brutal que as esmagou.
Maldita realidade, sem ela tudo estaria tão bem.

A NORMALIDADE NO INÍCIO DO ANO LECTIVO. E OS FUNCIONÁRIOS?

Ao que se lê no JN existem escolas que ainda não funcionam regularmente por falta de funcionários. Os directores escolares estimam que faltem cerca de 1000 funcionário s o ME negoceia com o Ministério das finanças a contratação de mais efectivos.
Fruto dos avanços no processo de colocação de professores e também do reposicionamento dos discursos políticos em função da configuração do Governo e dos partidos que o suportam no Parlamento, impera uma referência de normalidade no arranque do ano lectivo. No entanto, ao que se sabe e apesar das melhorias subsistem problemas, o dos funcionários é um deles.
Retomo notas do início deste mês. É recorrente a queixa relativa ao número de funcionários nas escolas. Acresce que nos últimos anos as necessidades das escolas, elaboradas de acordo com rácios já desajustados face às mudanças na organização do sistema, são colmatadas através do recurso a desempregados inscritos nos Centros de Emprego, o chamado Contrato Emprego-Inserção, que chegam tarde às escolas, a maioria sem formação para o trabalho que envolva crianças.
No entanto, ao fim de cada ano estas pessoas vão embora e não podem voltar a trabalhar no ano seguinte no local em que estiveram independentemente da qualidade do seu desempenho e do desejo das direcções escolares. Esta medida indefensável só pode ser entendida à luz das múltiplas habilidades para disfarçar o desemprego sem, verdadeiramente, criar emprego.
Algumas notas sobre o papel dos auxiliares de educação considerando, sobretudo, o seu importante papel educativo para além das funções de outra natureza que também desempenham que exige a adequação do seu efectivo, formação e reconhecimento. No caso mais particular de alunos com necessidades educativas especiais, em algumas situações os assistentes operacionais serão mesmo uma figura central no seu bem-estar educativo, ou seja, são mesmo auxiliares de acção educativa.
A excessiva concentração de alunos em centros educativos ou escolas de maiores dimensões não tem sido acompanhada pelo ajustamento adequado do número de auxiliares de educação. Aliás, é justamente, também por isto, poupança nos recursos humanos, que a reorganização da rede, ainda que necessária, tem sido feita com sobressaltos e com a criação de problemas.
Na verdade, os auxiliares educativos cumprem um papel fundamental, nem sempre valorizado, nas comunidades educativas e por várias razões.
Com frequência são elementos da comunidade próxima das escolas o que lhes permite o desempenho informal de mediação entre famílias e escola, terem uma informação que pode ser útil nos processos educativos e uma proximidade com os alunos que pode ser capitalizada importando que a sua acção seja orientada, tenha alguma formação e que se sintam úteis, valorizados e respeitados.
Os estudos mostram também que é nos recreios e noutros espaços fora da sala de aula que se regista um número muito significativo de episódios de bullying e de outros comportamentos socialmente desadequados. Neste contexto, a existência de recursos suficientes para que a supervisão e vigilância destes espaços seja presente e eficaz. Recordo que com muita frequência temos a coexistir nos mesmos espaços educativos alunos com idades bem diferentes o que pode constituir um factor de risco que a proximidade de auxiliares de educação minimizará.
Considerando tudo isto é imprescindível à qualidade dos processos educativos a presença em número suficiente de auxiliares de educação que se mantenham nas escolas com estabilidade e que sejam orientados e valorizados na sua importante acção educativa.

LIXO

Vivemos dias marcados pelo lixo.
Os abutres da Standard and Poor's decidiram, são eles que decidem, que Portugal continua “lixo”. Abutres sem alma gerem um deus chamado mercado, transformam em lixo o que e quem muito bem entendem à luz dos seus objectivos de saque imoral e escandaloso, criando milhões de pobres, esses sim assumindo a condição de lixo.
Estas agências são cabeças de um polvo que as alimenta e que delas se alimenta, transformam países em lixo, empresas em lixo, bancos em lixo com critérios que, frequentemente, nem os especialistas entendem mas que a alguém certamente servem.
Talvez seja de recordar que a Standard and Poor's notou com o máximo, AAA, o Lehman Brothers dias antes do seu colapso em 2008 com as consequências que bem conhecemos. Naturalmente que à agência que promoveu tão rigorosa avaliação não aconteceu nada, a nós e a muitos milhões de outras pessoas aconteceu tudo.
Para essa gente, nós, portugueses, também somos e continuamos lixo.
Continuando a falar de lixo, uma referência à coisa que o Arquitecto Saraiva resolveu produzir certamente à cata de uns tostões que a sordidez e a boçalidade sempre rendem por estas terras. O arquitecto Saraiva que em tempos parecia jornalista esqueceu tudo o que deve ser um trabalho sobre informação e que envolva pessoas.
Não, não escreveu um livro, um livro é outra coisa apesar de poder ter maior ou menor qualidade ou de gostarmos mais ou menos.
O arquitecto Saraiva, ao que se vai conhecendo pois não li nem vou ler, produziu um monte de esterco ofensivo e sórdido.
Aparentemente sem um sobressalto Passos Coelho associa-se à divulgação de tal monte de merda e convive muito bem com tal situação.

sexta-feira, 16 de setembro de 2016

A SÍNDROME DE BRAGANÇA

Por um qualquer desconhecido desígnio o Distrito de Bragança tem 10% dos casos de docentes com colocação especial por doença, de 4160 pedidos aceites pelo ME, 438 são neste distrito.
Uma forma estranha de doença do território não serve para explicar esta Síndrome que, aliás, tende a agravar-se, o número de casos aumentou 20% relativamente a 15/16. Existem outros distritos em regiões interiores que, felizmente para todos, contam com um corpo docente mais saudável até, imagino eu, do ponto de vista ético.
Em 4/8/2015 escrevi:

(…) Também estou deveras inquieto com a recorrente e preocupante Síndrome de Bragança, um quadro clínico que afecta anualmente centenas de professores ou familiares e que assim, contra sua vontade e contra a vontade dos médicos que comprovam o problema de saúde, se vêem obrigados a pedir destacamento para escolas mais perto da sua residência ou da família. Esta situação de saúde leva a que alguns professores mais graduados não acedam a lugares preenchidos pelos seus colegas com familiares adoentados.
Todos os anos o número de professores nesta situação no distrito de Bragança é bastante elevado o que solicita alguma investigação das autoridades de saúde no sentido de perceber a estranha epidemia.
Rápidas melhoras, um desejo enviado aqui de longe.”

Na realidade, a situação não melhorou como, pelo contrário, se agravou e a situação continua inquietante.
De novo, um sincero voto de boas melhoras para os docentes de Bragança e das respectivas famílias.
É por questões desta natureza que, provavelmente, não conseguiremos construir um modelo perfeito para colocação de professores. A tentação do "desenrascanço" é grande e a garantia de transparência, equidade e justiça parece impossível. 
Será destino? 
Será cultura?

DEFINITIVAMENTE, NÃO SOMOS UM PAÍS DE DOUTORES

Voltando ao Relatório da OCDE, “Education at a Glance 2016”, umas notas sobre algo que muitas vezes aqui refiro pela importância que julgo merecer, o ainda baixo nível de qualificação escolar da nossa população.
Apesar dos progressos e do aumento de alunos no ensino superior nos últimos dois anos é essencial considerar que apenas 23% da população entre os 26 e 54 anos frequentou o ensino superior e mais de metade da população entre os 25 e os 64 anos não completou o ensino secundário, dados elucidativos do que temos pela frente num mundo em que os patamares de desenvolvimento exigem formação cada vez mais sólida.
A este dados não será estranha a manutenção de Portugal no topo da lista em que a frequência do ensino superior mais depende do financiamento das famílias.
Acresce, já aqui o escrevi que segundo o relatório "Sistemas Nacionais de Propinas e Sistemas de Apoio no Ensino Superior 2015-16", da rede Eurydice da União Europeia apenas Portugal e a Holanda cobram propinas a todos os alunos do ensino superior, sendo também Portugal um dos países com valores de propina mais altos. Já em 2011/2012 dados também da rede Eurydice mostravam que Portugal tinha o 10º valor mais alto de propinas na Europa, mas se se considerassem as excepções criadas em cada país, tem efectivamente o terceiro valor mais alto de propinas.
Recordo que no início de 2014 um estudo patrocinado pela Comissão Europeia em oito países da Europa revelava, sem surpresa, que Portugal apresenta uma das mais altas percentagens, 38%, de jovens que gostava de prosseguir estudos mas não tem meios para os pagar.
Como tantas vezes digo, também julgo de considerar o impacto da tão perversa quanto errada ideia do "país de doutores" que se foi instalando com o precioso auxílio de alguma imprensa preguiçosa e negligente. Não corresponde à verdade e alimenta a ideia de que "estudar não vale a pena", representa um verdadeiro tiro no pé. O  desemprego entre jovens licenciados não decorre de serem licenciados mas da necessidade de desenvolvimento que absorva gente qualificada. Este cenário promove ainda o risco dos cidadãos desinvestirem em projectos de vida que passem pela qualificação, a verdadeira alavanca do desenvolvimento e, portanto, do futuro.
Ainda neste contexto, em 2012 foi divulgado um estudo realizado pelo Instituto de Educação da Universidade de Lisboa que contribui para desmontar um equívoco que creio instalado na sociedade portuguesa. Comparativamente a muitos outros países da Europa, Portugal tem um dos mais altos custos para as famílias para um filho a estudar no ensino superior, ou seja, as famílias portuguesas fazem um esforço bem maior, em termos de orçamento familiar, para que os seus filhos acedam a formação superior. Se considerarmos a frequência de ensino superior particular o esforço é ainda maior. Percebe-se assim a taxa altíssima de jovens que exprimem a dificuldade de prosseguir estudos.
Para reforçar a ideia de que não somos, definitivamente, um "país de doutores" importa sublinhar que, apesar dos progressos dos últimos anos, estamos muito longe de poder vir a cumprir a meta a que nos comprometemos com a UE para 2020, 40% de pessoas licenciadas entre os 30 e os 34 anos. É certo que algumas habilidades com a “meia licenciatura” podem dar um contributo mas não da melhor maneira.
A qualificação é a melhor forma de promover desenvolvimento e cidadania de qualidade pelo que apesar de ser um bem caro é imprescindível.

quinta-feira, 15 de setembro de 2016

NOTÍCIAS DA EDUCAÇÃO PRÉ-ESCOLAR

Foi hoje divulgado o relatório anual da OCDE, "Education at a Glance 2016". Dada a quandidade de informação disponível e como habitualmente faço vou deixando umas notas sobre tópicos diversos.
Uma nota sobre as boas e as menos boas notícias da educação pré-escolar. O acesso à educação pré-escolar em Portugal aumentou significativamente na última década. Passamos de uma cobertura de 61% em 2005 para 77% em 2014 para as crianças de três anos e a partir dos quatro anos temos já uma frequência de 91%, qualquer dos indicadores acima da média da OCDE.
As notícias menos positivas em matéria de educação pré-escolar apontam para que o investimento público nesta área seja inferior à média da OCDE o que significa que o esforço pedido às famílias é superior.
No mesmo sentido os grupos em educação pré-escolar, 17crianças por sala e por educador são superiores à média dos países analisados.
Em matéria de educação pré-escolar e da sua importância julgo de recordar que com base nos resultados do estudo comparativo PISA mostram que os alunos com piores resultados a matemática são aqueles que frequentaram o pré-escolar menos de um ano, ou que não frequentaram de todo, sendo a qualidade dos resultados é, regra geral, inversamente proporcional ao tempo passado no pré-escolar.
Nesta perspectiva é fundamental caminhar no sentido de garantir o acesso à educação pré-escolar aos três anos e criar respostas acessíveis, física e economicamente, às famílias para as crianças dos zero aos três anos é imprescindível.
Sabemos todos como o desenvolvimento e crescimento equilibrado e positivo dos miúdos é fortemente influenciado pela qualidade das experiências educativas nos primeiros anos de vida, de pequenino é que ...
Assim, existem áreas na vida das pessoas que exigem uma resposta e uma atenção que sendo insuficiente ou não existindo, se tornam uma ameaça muito séria ao futuro, a educação de qualidade para os mais pequenos é uma delas.
No entanto, como há algum tempo escrevi no Público, a educação pré-escolar é bastante mais que a “preparação” para a escola e não deve enredar-se no entendimento de que é uma etapa na qual os meninos se preparam para entrar na escola embora se saiba do impacto positivo que assume no seu trajecto escolar.
Na verdade, as crianças estão a preparar-se para entrar na vida, para crescer, para ser. A educação pré-escolar num tempo em que as crianças estão menos tempo com as famílias tem um papel fundamental no seu desenvolvimento global, em todas as áreas do seu funcionamento e na aquisição de competências e promoção de capacidades que têm um valor por si só não entendidos como uma etapa preparatória para uma parte da vida futura dos miúdos, a vida escolar.
Este período, a educação pré-escolar, cumprido com qualidade e acessível a todas as crianças, será, de facto, um excelente começo da formação institucional de cidadãos. Esta formação é global e essencial para tudo que virão a ser e a fazer no resto da sua vida.

quarta-feira, 14 de setembro de 2016

UM SONHO OLÍMPICO

O meu bom amigo Professor David Rodrigues tem hoje no Público um texto em que valoriza a realização dos Jogos Paralímpicos, “Paralímpicos, paratotós” e comenta o inaceitável ponto de vista do jornalista Joaquim Vieira que os considerou um “espectáculo grotesco” e um “número de circo”.
Sobre as afirmações de Joaquim Vieira já disse o que tinha a dizer e com o povo diz “não vale a pena gastar mais cera com tão ruim defunto”. No entanto não esqueço a insensibilidade ética e moral da sua opinião.
Sobre a importância dos Jogos Paralímpicos subscrevo, naturalmente, a sua valorização.
No entanto e conforme também já disse e escrevi, continuo a afirmar que espero o dia em que tenhamos apenas Jogos Olímpicos em que todos as provas, de todos os desportistas, se realizem no mesmo espaço de tempo e nos mesmos espaços físicos de acordo, evidentemente, com as exigências específicas.
Não é impossível em termos de organização e assim como não consigo aceitar que uma piscina pública seja frequentada por um grupo de pessoas com deficiência em “horário próprio” com "pistas reservadas", também acho que as pessoas, todas as pessoas, podem competir num mesmo evento nas respectivas provas.
Lembro-me sempre da afirmação de Biesta, a história da inclusão é a história da democracia e, do meu ponto de vista, também passa por aqui.
Só depende de nós.
Sim, eu sei, é um sonho olímpico. Será, mas não é seguramente Paralímpico


TEREMOS ALGO DE NOVO NAS PRAXES?

É hoje apresentado o Programa Praxe + um programa da responsabilidade da Agência Nacional para a Cultura Científica e Tecnológica e que se integra no conjunto de iniciativas e posições do Ministério da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior que visam criar algumas alternativas às velhas praxes e aos seus velhos problemas.
De facto, a partir de agora e muitas vezes por um período prolongado, tal como nos movimentos migratórios, as cidades com ensino superior começam a ser invadidas por uma população curiosa, os caloiros. Andam aos bandos pelas ruas, com um ar patético, mascarado de divertido, enquadrados por uma rapaziada de negro, trajada, como gostam de dizer. É o tempo das praxes aos que chegam ao ensino superior.
Não sei se em resultado de alguns episódios lamentáveis, até com consequências graves do ponto de vista físico o que levou a tutela e as instituições a "desencorajar" ou mesmo proibir as praxes, se em resultado das escolhas dos próprios estudantes ou em resultado dos esforços do MATA (Movimento Anti-Tradição Académica), noto que as “actividades” de praxe têm vindo a ser mais brandas apesar de alguns excessos que sempre se verificam.
Fico satisfeito com esta alteração, sobretudo se corresponder a decisões assumidas pelos estudantes no seu conjunto e não fruto de ameaças ou determinações da tutela ou da direcção das diferentes escolas, estamos a falar de gente crescida e, espera-se, autodeterminada.
De facto, como regularmente aqui afirmo partindo de um conhecimento razoavelmente próximo deste universo, a regulação dos comportamentos nas praxes tem-me parecido indispensável. Parece-me ainda importante que os dispositivos de regulação das praxes integrem o respeito por posições diferentes por parte dos estudantes sem que daí advenham consequências implícitas ou explícitas para a sua participação na vida académica que, frequentemente, não sendo "enunciadas", são, evidentemente, praticadas.
Os repetidamente referidos "Códigos de Praxe", nas suas diferentes designações, não parecem suficientes para inibir abusos dos comportamentos e as consequências negativas sobre os não aderentes às praxes.
Na verdade, de forma aparentemente tranquila coexistem genuínas intenções de convivialidade, tradição e integração na vida académica com boçalidade, humilhação e violência sobre o outro, no caso o caloiro, a “besta” como elegantemente é designado. Tenho assistido e todos temos conhecimento de cenas absolutamente deploráveis por mais que os envolvidos lhes encontrem virtudes.
Apesar dos discursos dos seus defensores, continuo a não conseguir entender como é que, a título de exemplo, humilhar rima com integrar, insultar rima com ajudar, boçalidade rima com universidade, abusar rima com brincar, ofender rima com acolher, violência rima com inteligência ou coacção rima com tradição. Devo, no entanto sublinhar que não simpatizo com estratégias de natureza proibicionista, sobretudo em matérias que claramente envolvem valores. Nesta perspectiva, parece-me um passo positivo uma anunciada iniciativa de regulação envolvendo diferentes academias.
Quando me refiro a esta questão, surgem naturalmente comentários de pessoas que passaram por experiências de praxe que não entendem como negativas, antes pelo contrário, afirmam-nas como algo de positivo na vida universitária. Acredito e obviamente não discuto as experiências individuais, falo do que assisto e conheço.
A minha experiência universitária, dada a época, as praxes tinham entrado em licença sabática, por assim dizer, foi a de alguém desintegrado, isolado, descurriculado, dessocializado e taciturno porque não acedeu ao privilégio e experiência sem igual de ser praxado ou praxar. Provavelmente, advém daí a minha reserva.

terça-feira, 13 de setembro de 2016

OS TRABALHOS DE CASA. DE NOVO

Existem algumas matérias na educação que por várias razões estão sempre na agenda o que do meu ponto de vista é positivo face à sua importância e latitude de apreciações. Uma dessas matérias é a questão dos "trabalhos de casa" e hoje no I surge um texto que me parece muito interessante do Professor Mário Cordeiro, “TPC – esse fantasma ineficaz que persegue os alunos”.
Talvez fruto do clima de fortíssima crispação que nos últimos anos envolve a educação, os debates e as ideias também tendem a ser crispados, com opiniões definitivas e sem margem de entendimento. Também assim tende a acontecer quando se discute a questão dos TPC. Mais uma vez e sem qualquer visão fundamentalista fica um contributo para uma discussão e mudanças que me parecem necessárias, aliás, umas não vão sem a outra.
Segundo a OCDE num trabalho "Does homework perpetuate inequities in education?" produzido com base em dados recolhidos no âmbito do PISA nos anos de 2003 e 2012 os alunos portugueses de 15 anos, dados de 2012, gastam em média 4h semanais na realização de trabalhos de casa, menos uma hora que em 2003 e menos uma hora que a média dos 38 casos estudados pela OCDE.
Do meu ponto de vista, os dados mais relevantes deste relatório remetem para o facto de que os alunos com famílias de meios sociais e económicos mais favorecidos gastarem mais 2 horas em trabalhos de casa que os seus colegas com famílias de estatuto mais baixo o que, sublinha a OCDE, poderá alimentar a falta de equidade.
Neste contexto, parece-me pertinente recordar que o nível de escolaridade dos pais, em Portugal em particular da escolaridade da mãe conforme dados recentemente divulgados, é um fortíssimo preditor do sucesso escolar dos filhos. Um recente trabalho da responsabilidade conjunta da Fundação Francisco Manuel dos Santos e do CNE mostrou que que nove em cada dez alunos com insucesso escolar são de famílias pobres.
Estes dados sustentam o entendimento de que os trabalhos de casa correm o sério risco de alimentar desigualdade de oportunidades e obriga-nos a reflectir sobre a sua utilização.
Parece-me também importante o facto de que no nosso sistema educativo os alunos do 1º, 2º e 3º ciclo podem passar 8 ou 10 horas diárias na escola considerando o tempo lectivo, as Actividades de Enriquecimento Curricular e a Componente de Apoio à família, (no limite algumas crianças poderão estar 55 horas semanais na escola, uma enormidade). Este tempo de permanência na escola é um dos mais longos dos países da OCDE e vai também envolver os alunos até ao 9º por decisão do actual ME. Acresce que em muitas circunstâncias, muitos alunos têm ainda Trabalhos Para Casa que, nas mais das vezes, são a continuação ou a réplica de trabalhos escolares, ou seja mais do mesmo.
Não tenho nenhuma posição fundamentalista, insisto, mas creio que deve distinguir-se com clareza o Trabalho Para Casa e o Trabalho Em Casa. O TPC é trabalho da escola feito em casa, o trabalho em casa será o que as crianças podem fazer em casa que, não sendo tarefas de natureza escolar, pode ser um bom contributo para as aprendizagens dos miúdos. O que acontece mais frequentemente é termos Trabalhos Para Casa e não Trabalho Em Casa.
Os TPCs clássicos têm ainda o problema de colocar com frequência os pais em situações embaraçosas, querem ajudar os filhos mas não possuem habilitações para tal.
A propósito, numa reunião de pais em que participava e se discutia esta questão, dizia uma mãe, “o senhor, da maneira que fala, se calhar é capaz de ajudar o seu filho, mas na minha casa, chora a minha filha e choro eu, ela porque quer ajuda, eu porque não sou capaz de lha dar.” Colocar os pais nesta posição parece-me inaceitável.
Torna-se, pois, necessário que professores e escolas se entendam sobre esta matéria, diferenciando trabalho de casa, igual ao da escola, de trabalho em casa, trabalho em que qualquer pai pode, deve, envolver-se e é útil ao trabalho que se realiza na escola.
Tudo isto considerado. o recurso ao TPC deveria avaliar se o aluno, cada aluno, tem capacidade e competência para o realizar autonomamente, por exemplo, o treino de competências adquiridas. Na verdade, porque milagre ou mistério, uma criança que tem dificuldade em realizar os seus trabalhos na sala de aula, onde poderá ter apoio de professores e colegas, será capaz de os realizar sozinha em casa? Naturalmente tal só acontecerá com a ajuda dos pais ou, eventualmente, de "explicadores" a que muitas famílias, sabemos quais, não conseguem aceder.
No entanto, do meu ponto de vista, sobretudo nas idades mais baixas, o bom trabalho na escola deveria dispensar o TPC. É uma questão de saúde e qualidade de vida.
Parece ainda de sublinhar que os estudos sugerem que "é sobretudo a qualidade das aulas, mais do que o tempo global de aprendizagem que está associado ao sucesso na aprendizagem. Aliás, no citado relatório da OCDE também se conclui que não há uma relação significativa entre o número médio de horas gastas nos TPCs e os resultados escolares.
Andaríamos melhor se reflectíssemos sem preconceitos e juízos fechados sobre questões desta natureza.

A INTERNET E OS MAIS NOVOS

O Público de ontem traz uma peça importante sobre uma matéria que merece alguma atenção a todos os que lidam com crianças e jovens embora não lhes diga exclusivamente respeito, a net e o mundo de oportunidades, benefícios e riscos que está presente em todas as suas potencialidades.
Algumas notas em complemento do trabalho do Público. Segundo dados do projecto europeu EuKids Online, o uso continuado da Internet repercute-se em 45% das crianças portuguesas com um dos seguintes sintomas: não dormir, não comer, falhar nos trabalhos de casa, deixar de socializar, tentar passar menos tempo online. Em termos europeus apenas a Estónia tem um número superior, 49%. 17 % dos inquiridos revela a presença de dois sinais, ter deixado de comer ou dormir para estar ao computador.
Há algum tempo tinha abordado esta problemática a propósito das implicações do uso excessivo das novas tecnologias no desenvolvimento de crianças e adolescentes, designadamente nos hábitos e saúde do sono.
Um estudo recente realizado nos EUA acompanhando durante seis anos 11 000 crianças encontrou fortes indícios de relação entre perturbações do sono e o desenvolvimento de problemas de natureza diferenciada no comportamento e funcionamento das crianças.
Esta questão, os padrões e hábitos de sono das crianças, é algo de importante que nem sempre parece devidamente considerada. Também entre nós, vários estudos sobre os hábitos e padrões de sono em crianças e adolescentes têm sido desenvolvidos, segundo os quais mais de metade dos adolescentes inquiridos apresentam quadros de sonolência excessiva e evidenciam hábitos de sono pouco saudáveis. Esta constatação vai no mesmo sentido de outros trabalhos com crianças mais novas. A falta de qualidade do sono e do tempo necessário acaba, naturalmente, por comprometer a qualidade de vida das crianças e adolescentes.
Várias investigações sugerem que parte das alterações verificadas nos padrões e hábito relativos ao sono remetem para questões ligadas a stress familiar e sublinham o aumento das queixas relativas a sonolência e alterações comportamentais durante o dia.
Acresce, como os dados do EuKids Online evidenciam, um conjunto de outros riscos decorrentes da utilização menos regulada das novas tecnologias o que solicita alguma reflexão sobre hábitos e estilos de vida dos mais novos. Um dos problemas emergentes e preocupantes neste universo é a utilização das redes sociais e risco do cyberbullying que já aqui tenho abordado. Segundo alguns estudos, perto de 50% das crianças até aos 15 anos terão computador ou televisor no quarto, além do telemóvel.
Acontece que durante o período de sono e sem regulação familiar muitas crianças e adolescentes estarão diante de um ecrã, pc, tv ou telemóvel. Com é óbvio, este comportamento não pode deixar de implicar consequências nos comportamentos durante o dia, sonolência e distracção, ansiedade e, naturalmente, o risco de falta de rendimento escolar num quadro geral de pior qualidade de vida. Creio que, com alguma frequência, alguns comportamentos, sobretudo nos mais novos, que são de uma forma aligeirada remetidos para o saco sem fundo da hiperactividade e problemas de atenção, estarão associados aos seus hábitos e padrões de sono como, aliás, os estudos parecem sugerir.
Em casa, têm durante muitas horas um ecrã como companhia durante o pouco tempo que a escola "a tempo inteiro" e as mudanças e constrangimentos nos estilos de vida das famílias lhes deixam "livre". Também é verdade que a crescente "filiação" em redes sociais virtuais possam “disfarçar”, juntando quem “sofre” do mesmo mal e o tempinho remanescente para estar em família, quase sempre ainda é passado à sombra de uma televisão.
De há muitos anos que se sabe que não se cresce só, cresce-se na relação com pares e adultos. É por isso que, embora entenda a expressão, ouvir chamar a este tempo, o tempo da comunicação, me faz sorrir, acho mais apropriado considerá-lo o tempo do estar só ou a assistir à solidão dos outros. Recordo a afirmação de um miúdo de 11 anos colocada num desenho, "a minha consola é que me consola".
Estas matérias, a presença das novas tecnologias na vida dos mais novos, são problemas novos para muitos pais. Considerando as implicações sérias na vida diária importa que se reflicta sobre a atenção e ajuda destinada aos pais para que a utilização imprescindível e útil seja regulada e protectora da qualidade de vida das crianças e adolescentes.
A experiência mostra-me que muitos pais desejam e mostram necessidade de alguma ajuda ou orientação nestas matérias. Sabemos que estratégias proibicionistas tendem a perder eficácia com a idade.
Creio que o caminho terá de passar por autonomia, supervisão, diálogo e muita atenção aos sinais que crianças e adolescentes nos dão sobre o que se passa com elas.