sábado, 20 de janeiro de 2018

SÓ PODE SER BOM PROFESSOR QUEM TENHA SIDO BOM ALUNO. SERÁ? (Take 2)

Ontem no Observador Alexandre Homem Cristo retomou a questão de serem os alunos com notas mais baixas no ensino básico e secundário os que mais revelam a intenção de ser professor. Também nos processos de candidatura ao ensino superior são os alunos com médias mais baixas que se candidatam a cursos de Formação de Professores e Ciências da Educação. Esta situação é de sinal contrário ao que se passa em muitos países.
AHC produz uma análise que merece reflexão embora em algumas questões, como o povo diz, me pareça “uma no cravo, outra na ferradura”.
Esta questão não é nova e retomo algumas notas que creio oportunas.
Uma síntese dos dados. Os candidatos aos cursos de Formação de Professores e Ciências da Educação tiveram na 1ª fase uma média de 130.7 em 200, apenas acima dos candidatos aos cursos de Serviços Social. Por outro lado, segundo os dados do PISA de 2015 só 1.5% dos alunos de 15 anos envolvidos encara a possibilidade de ser professor sendo que estes alunos se situam nos níveis mais baixos de resultados a Matemática e Leitura, o contrário do  que se verifica noutros países.
Dito de outra maneira e de forma simples, são fundamentalmente os alunos de 15 anos com menor desempenho médio (critério PISA) que admitem vir a ser professores e são basicamente os alunos mais “fracos”na finalização do secundário que se candidatam a professores. No entanto, é interessante recordar que no PISA de 2012 e no conjunto dos vários países, a maioria dos alunos portugueses é da opinião de que os professores os ajudam. Portugal e Finlândia lideravam a satisfação com a ajuda prestada pelo corpo docente (83% e 85%, respectivamente). Isto quer dizer, conforme outros estudos demonstram, que os alunos valorizam os professores mas não a profissão o que de facto merece reflexão.
Duas notas prévias.
Em primeiro lugar julgo ser necessária prudência, também recomendada por AHC, sobre a interpretação destes dados e o seu impacto na qualidade dos trajectos futuros, a relação entre o perfil de desempenho de um aluno de 15 anos ou as médias do acesso ao ensino superior e o seu potencial desempenho futuro como professor deve ser vista com extrema reserva. Não é garantido que estes alunos venham a ser maus profissionais como não é garantido que todos os alunos com médias mais elevadas que se candidatam a outras áreas científicas venham a ser excelentes profissionais.
Uma segunda nota para defender que este cenário também se liga ao mecanismo de acesso ao superior, dimensão não considerada por AHC. De há muito que defendo que as médias de conclusão do secundário deveriam ser apenas um dos critérios de acesso ao superior e que deveriam ser as instituições de ensino superior a estabelecer o conjunto de critérios na ordenação do acesso às diferentes áreas científicas. Um caso simples (talvez demasiado simples) para ilustrar isto. Eu quero ser professor mas sei que as notas de acesso são baixas devido á baixa procura. Assim e como não me parece particularmente motivador o que ando a aprender no secundário, cumpro a formação com resultados baixos que me permitem aceder ao meu sonho no qual vou investir e e ser bom aluno e bom profissional. É inverosímil? Não creio.
No caso dos professores e das ciências da educação, como noutras áreas, não é impossível desenhar dispositivos de acesso que despistem vocações e motivações, competências diversas e requisitos considerados pertinentes e considerem também, naturalmente, as médias de conclusão do secundário.
No que que respeita à construção de um bom professor importa ainda não esquecer variáveis fundamentais, a qualidade da sua formação o que obriga a reflectir sobre o que é feito nesta matéria e a regulação do acesso à carreira profissional através da única forma de o fazer correctamente, o desempenho em sala de aula, e não uma sinistra PACC de má memória. O surgimento nas últimas décadas de inúmeras instituições de formação de professores e a incapacidade reguladora da tutela implicou enormes riscos de qualidade, num território com a nossa dimensão é difícil constituir tantos corpos docentes qualificados e experientes. O resultado tem sido o convívio sem sobressaltos entre a excelência e a mediocridade delegando no sentido ético, empenhamento, apoio e auto-formação de cada docente a competência do seu exercício. É evidente que ao longo da carreira profissional assim continuará a ser mas é crítica a qualidade da formação inicial
Por outro lado também são de considerar alguns ouros aspectos. Não creio que a este cenário seja alheio o conteúdo de alguns discursos produzidos sobre os professores que desvalorizam e empobrecem o seu estatuto social e a representação sobre a classe e que são produzidos, por exemplo, por “opinion makers” que frequentemente têm agendas implícitas e quase sempre estão mal informados. No Observador, é só um exemplo, não é raro que tal aconteça.
Talvez também não seja alheia a instabilidade nas políticas educativas com impacto óbvio na estabilidade das carreiras e da sua valorização. Provavelmente em muitas famílias, as que mais probabilidades terão de ter filhos com melhor desempenho escolar, a profissão professor não é uma escolha incentivada ou, no mínimo, bem aceite.
Também alguns discursos vindos dos próprios representantes dos professores podem muitas vezes contribuir para equívocos e representações desajustadas sobre os professores e os seus problemas.
Julgo ainda que deve ser considerado o impacto de alterações nos valores, padrões e estilos e vida das famílias que fazem derivar para a escola, para os professores, parte do papel que competia(e) à família. Este trabalho é realizado, muitas vezes, sem qualquer tipo de apoio ou suporte, com cada professor entregue a si mesmo em climas institucionais pouco favoráveis.
Deste cenário resulta como tantas vezes tenho afirmado a necessidade da valorização dos docentes e da sua profissão de modo a que se torne mais atractiva. Relembro ainda que o envelhecimento muito significativo da classe colocará muito provavelmente a necessidade de docentes questão que também AHC considera e bem.

sexta-feira, 19 de janeiro de 2018

DOS TEMPOS "LIVRES" DOS MIÚDOS SEM TEMPOS LIVRES

Um texto de Pedro Strecht na Visão, “Hiperactividade e défice de atenção: um novo paradigma”, para além da pertinência da questão, contém uma afirmação que julgo de particular relevância nos processos educativos em vários contextos, escolar e familiar.
Os tempos de recreio e de espaços verdadeiramente “livres” diminuíram e são considerados vulgarmente “desnecessários”, o que é um erro dramático para toda uma geração.
Muitas vezes me tenho referido aqui e nos espaços de intervenção profissional a esta questão, a última foi já esta semana em mais uma estimulante conversa com pais de crianças em creche e jardim-de-infância em que a importância de brincar de forma autónoma e sem um “programa” de actividades é uma ferramenta útil ao desenvolvimento das crianças. Ainda umas notas a este propósito.
Recupero uma pequena história real. Uma mãe mostrava-se muito aborrecida com o Atelier de Tempos Livres em que o filho, gaiato de uns 10 anos, passa boa parte das férias, porque os técnicos responsáveis "dão poucas actividades às crianças e depois elas põem-se a brincar umas com as outras".
É inquietante perceber alguma visão que, de mansinho, se foi instalando também em muitos pais.
De facto, os discursos e as orientações que se aceitam com "certas" vão criando, também nos pais, a ideia de que os tempos não são de brincar.
Os tempos são de trabalhar, muito, em nome da competitividade e da produtividade, condição para a felicidade, dizem. Vai sendo roubado aos miúdos o tempo e o espaço que nós tínhamos e empregam-nos horas sem fim nas fábricas de pessoas, escolas, chamam-lhes. Aí os miúdos trabalham a sério, a tempo inteiro, dizem, pois só assim serão grandes a sério, dizem também.
Às vezes, alguns miúdos ainda brincam de forma escondida, é que brincar passou a uma actividade quase clandestina que só pais ou professores “românticos”, “facilitistas”, “eduqueses” ou “incompetentes” acham importante.
Mesmo quando os miúdos vão para umas coisas a que chamam “tempos livres”, a verdade é que muitas circunstâncias de livres têm pouco e frequentemente se confunde brincar com entreter e outras vezes acontece a continuação do trabalho que se faz na fábrica de pessoas, a escola. Quando assim não é, felizmente existem muitos espaços em que não é assim, alguns pais reagem como a mãe da história.
Também são encaixados em dezenas de actividades fantásticas, com nomes fantásticos, que promovem competências fantásticas e fazem um bem fantástico a tudo e mais alguma coisa.
Era bom escutar os miúdos e, desculpem a insistência, se lhes perguntarem vão ficar a saber que brincar é a actividade mais séria que realizam, em que põem tudo o que são, sendo ainda a base de tudo o que virão a ser.

quinta-feira, 18 de janeiro de 2018

O RISO

Uma passagem de olhos pela imprensa traz quase sempre algo de inesperado. Cumpre-se hoje o Dia Internacional do Riso. É verdade. É assinalada a importância que o riso tem na vida das pessoas.
De facto, sabemos como o riso é habitualmente um sinal de bem-estar ou satisfação e também sabemos como tantas vezes nos faltam motivos para rir como outras tantas nos rimos e sentimos bem.
No que se refere aos mais novos e à importância que para eles tem o riso e o que o riso pode significar, a melhor lição que alguma vez ouvi e que tantas vezes aqui referi, desculpem referi-la de novo, aconteceu-me há uns anos em Inhambane, Moçambique.
Ao passar por uma escola para gaiatos pequenos o Velho Bata, um homem velho e sem cursos, meu anjo da guarda durante a estadia por lá, disse-me que se mandasse traria um camião de batata-doce para aquela escola. Perante a minha estranheza, explicou que aqueles miúdos haveriam de comer até se rir, “só aprende quem se ri”, rematou o Velho Bata.
Pois é Velho, por mais que alguns insistam que tudo tem que ser sério e trabalho, as crianças só aprendem quando se riem.
Convém, aliás, não esquecer que brincar é também a actividade mais séria que as crianças realizam.

AINDA A SUPERNANNY

Excerto de uma colaboração numa peça do DN sobre um dos temas do momento em matéria de educação, “Supernanny”, claro. Em colaborações desta natureza e dada a forma da sua realização, existe sempre o risco de ter afirmações descontextualizadas que lhes podem comprometer o sentido e o conteúdo.
“Não sei se é com aquelas receitas utilizadas no programa que a Margarida deixa de ser furacão porque é necessário tempo para fazer perguntas, para observar, para compreender o que se passa à volta da criança”.
Reafirmo as minhas sérias reservas, por diferentes razões, ao modelo de programa embora entenda que “discutir publicamente e nos “media” as questões da educação” é importante.
Definitivamente e com escrevi há dois dias, “Ser pai não é mobilizar de forma prescritiva um conjunto de “práticas” receitadas por diferentes especialistas. É melhor deixar que os pais falem e encontrem por si a forma de fazer. No fundo, a maioria saberá como, precisa apenas de se sentir confiante e tranquilo. Os que verdadeiramente necessitarão de ajuda serão bastante menos.
Não precisamos de “superpais” como também não precisamos de “superfilhos”."

quarta-feira, 17 de janeiro de 2018

OS "ALÇAPÕES DA NET". DE NOVO

Na imprensa dos últimos dias encontravam-se duas peças que merecem leitura e reflexão sobre um universo que tenho designado por “alçapões da net”. No Público podia ler-se “Quando for grande quero ser youtuber “ e no Observador “Os mitos educativos que estão a deixar ascrianças viciadas em tecnologia”. Algumas notas repescadas de um texto que produzi para a Visão.
A presença das tecnologias de informação e de utilização lúdica no nosso quotidiano é cada vez mais pesada e cada vez mais as sentimos como imprescindíveis.
Em muitas famílias as crianças desde muito cedo as crianças têm acesso a este tipo de equipamentos e conteúdos e são reconhecidos os riscos que a sua sobre utilização implica como as peças sublinham.
Apesar de termos contextos familiares em que estes dispositivos são utilizados como serviço de “babysitting”, ou seja, as crianças estão “entretidas” com um qualquer ecrã durante demasiado tempo para “descanso” da família, a experiência mostra-me que muitos pais se preocupam com os comportamentos e atitudes que devem adoptar.
Os estilos de vida e as particularidades de cada situação não permitem elaborar “receitas” com as quais em matéria de educação escolar ou familiar não simpatizo muito. No entanto, creio que poderemos considerar alguns pontos que nos podem ajudar nesta matéria entendidos como orientações.
Não me parece boa ideia “diabolizar” as novas tecnologias, fazem parte do nosso quotidiano e são excelentes ferramentas de acesso a conhecimento e a entretenimento, quer em contexto familiar, quer em contexto escolar. Aliás, já nem me parece que justifiquem o "novas". Assim sendo, afastá-las das crianças e jovens não parece o mais ajustado.
Nesta perspectiva, exceptuando crianças muito pequenas e por razões óbvias, a proibição não parece uma boa abordagem. A definição de regras, tempo, atenção aos conteúdos e circunstâncias de utilização e supervisão relativamente aos conteúdos será uma atitude bem mais ajustada. Não é, evidentemente, uma tarefa fácil mas parece-me imprescindível que sejamos firmes e consistentes nesse sentido, os riscos são elevados e o bem-estar presente e futuro das crianças merece e justifica o esforço.
Conversar com outros pais, educadores/professores ou técnicos sobre estas questões parece também uma boa iniciativa. Verificamos que não somos os únicos a lidar com dificuldades ou inquietações o que pode minimizar alguma insegurança ou receio e podemos partilhar informações e formas de actuar que podem ser úteis apesar das diferenças de cada situação.
Finalmente, creio que a interacção com as crianças na utilização destes materiais é também uma boa opção. Com as mais pequenas porque possibilita ajuda e orientação no uso e com as mais velhas a interacção funciona como forma de supervisão e alerta para “os alçapões” da “net”.
Esta interacção com as crianças é também importante como forma de promover a sua auto-regulação e autonomia nas viagens virtuais. Estão informadas dos riscos, estão informadas sobre a adequação de conteúdos e quando os filtros dos próprios programas não funcionam as crianças decidirão sobre o que acedem ou não acedem, sobretudo quando estão sós. E como como sabemos, muitas crianças estão sós, mesmo quanto têm adultos por perto.
Sei que não é fácil este caminho mas creio que é importante o esforço de o percorrer.
Boas viagens pela “net” … para pais e filhos.

terça-feira, 16 de janeiro de 2018

NÃO PRECISAMOS DE SUPERPAIS!

“Não precisamos de superpais”, este foi o título do primeiro texto com que iniciei a minha colaboração com a Visão online e que retomo para estas notas.
Serve esta afirmação para uma pequena introdução a umas notas sobre a questão do programa “Supernanny” em exibição na SIC. Sou dos que entendo que matérias como a educação devem ser abordadas na comunicação social, aliás, entendo que temos um défice nessa matéria. No entanto também defendo que que a abordagem destas matérias, designadamente por parte dos profissionais da área, para além dos aspectos científicos deve acautelar questões de natureza ética e deontológica. Nenhuma dúvida sobre isto. Deve ainda ser muito prudente no enunciar de mensagens prescritivas evitando a ideia da “receita” infalível para problemas ou situações das quais se não conhecem todas as variáveis. Procuro não esquecer este entendimento na colaboração regular com a imprensa, por coincidência, com um texto divulgado hoje.
É isto que me parece estar em causa neste episódio da série “Supernanny” que a SIC começou a exibir. Do meu ponto de vista e tal como se entendeu noutros países, o conteúdo e a forma como as questões são tratadas podem ferir, eu acho que ferem, regras de deontologia, ética e de prudência científica da psicologia, a minha área de intervenção, como alguns saberão. Aliás, a própria Ordem dos Psicólogos Portugueses expressou uma posição de sérias reservas.
Toda esta situação radica em algo que tem vindo a verificar-se, alguns excessos nos discursos sobre a "instrução" e "educação" e as questões novas que as mudanças nos valores e nos estilos de vida colocam levam a que alguns pais sintam algumas dificuldades no seu trabalho de pais e a que muito técnicos tenham tentação de fornecer um "manual de instruções" que promoverá a educação perfeita da criança perfeita.
É verdade que contrariamente ao que acontece com todos os bens, até por imposição comunitária, as crianças continuam, felizmente, a ser providenciadas aos pais sem virem acompanhadas de um manual de instruções, em várias línguas, preferencialmente.
Provavelmente por isso, ultimamente tem-se verificado um aumento exponencial na publicação destes "manuais" ou de peças na imprensa com a mesma intenção, ensinar-nos o ofício de pais. São consideradas questões como lidar com birras, com os problemas dos adolescentes, com a escola e os seus problemas, como lidar com os filhos e com os amigos dos filhos, como comunicar com eles, como gerir os seus gostos e as suas crises, como agir nas férias, como ocupar os fins-de-semana, como dialogar em família, como perceber a “cabeça” dos mais novos, como definir regras e disciplina, que alimentação e estilos de vida, como ocupar os tempos livres, que actividades fazem melhor a quê, etc. etc. Todas estas matérias são escrutinadas e analisadas de modo a fornecer, crê-se, um manual de instruções.
A imprensa, em diferentes registos, acompanha a onda, em variadíssimas secções, colaborações e colunas de aconselhamento providenciam-nos receitas, dicas, sugestões exactamente com o mesmo objectivo mas em versão telegráfica. Dado que também colaboro regularmente com a comunicação social a minha preocupação aumenta, coloca-me dúvidas e  tem motivado algumas recusas.
Este frenesim assenta, creio, na melhor das intenções, tornar-nos bons pais. Pela avalanche de ajuda parece que não estamos a conseguir e a experiência mostra-me que muitos pais se sentem assustados com alguns dos discursos que lhes são dirigidos, tanto quanto com algumas das dificuldades que em algumas circunstâncias sentem com os filhos em diferentes idades.
Existem para todos os gostos, para todas as idades e escritos sob as mais variadas perspectivas. Tenho lido muitos, uns acho interessantes e uma eventual ajuda para alguns pais e para algumas questões, outros, devo confessar, deixam-me alguma inquietação, não passam de um enunciado de "orientações prescritivas" longe das circunstâncias de vida em que muitas famílias se movem.
Para além das ajudas que os pais possam encontrar nestes "manuais de instruções" creio ser importante sublinhar que, felizmente para todos nós, a começar pelas crianças, os pais são, de uma forma geral, intuitivamente competentes, mais "asneira", menos "asneira", mais uma "festinha", menos um "ralhete" e a estrada cumpre-se sem grandes sobressaltos. Um discurso social excessivo em torno da "psicologização" ou induzindo a ideia de que só indo a uma "escola de pais" e lendo vários "manuais de instruções" poderemos ser bons pais, pode ser mais fonte de problemas que de ajuda.
Parece-me importante que os pais falem entre si sobre as suas experiências, sem medo de que os julguem maus pais, que na relação com os técnicos ligados à educação as conversas não incidam quase que exclusivamente sobre "se está bem ou mal na escola", mas que se abordem as questões educativas também no contexto familiar de forma aberta e serena. Os "manuais de instruções" não são a solução, são, muitos deles, apenas mais uma ajuda.
Pais atentos, pais confiantes, são pais que educam sem especiais problemas. Curiosamente, alguns "manuais" e alguns discursos "científicos" podem aumentar a insegurança e a ansiedade de alguns pais.
Começo a sentir que está fazer falta alguma tranquilidade e serenidade que devolvam aos pais a confiança em si mesmos e na sua capacidade para exercer bem o papel. Sei que por vezes não é fácil. Ser pai não é mobilizar de forma prescritiva um conjunto de “práticas” receitadas por diferentes especialistas. É melhor deixar que os pais falem e encontrem por si a forma de fazer. No fundo, a maioria saberá como, precisa apenas de se sentir confiante e tranquilo. Os que verdadeiramente necessitarão de ajuda serão bastante menos.
Não precisamos de “superpais” como também não precisamos de “superfilhos”. 

"ELE E ELA", UM OUTRO TEMPO

Partiu Madalena Iglésias, um ícone num tempo feio de um país triste que vibrou com “Ele e Ela” e numa época em que elas eram menos gente. Era um tempo a preto e branco e de direitos capturados.
Para os mais novos.


NA VISÃO ONLINE, "PAIS AMIGOS OU UNS AMIGOS QUE SÃO OS PAIS"

Umas notas na Visão online, “Pais amigos ou uns amigos que são os pais”.
(…)
É verdade que se entendermos por amigo alguém com quem trocamos afecto e temos uma relação próxima os pais serão amigos dos filhos. No entanto, o papel de “pai/mãe” está para além do papel de amigo e seria desejável que não tivéssemos grandes dúvidas sobre isto não apenas no que afirmamos mas, sobretudo, na forma como em cada dia nos relacionamos com os nossos filhos.
O exercício da parentalidade pressupõe e exige uma função reguladora do comportamento e da socialização, a construção de um espaço familiar de afecto, vinculação e aconchego, a promoção da autonomia, enfim, uma relação que em muitos aspectos não é da mesma natureza ou mesmo compatível com o papel de amigo.
(…)

segunda-feira, 15 de janeiro de 2018

O DIA DO PERFIL DO ALUNO

Realiza-se hoje uma “jornada de reflexão”, “Dia do Perfil do Aluno”, nas escolas que aderiram sobre o Perfil do Aluno recentemente aprovado. Para além da iniciativa nas escolas realiza-se uma Conferência em Lisboa na Fundação Champalimaud com a presença do Ministro da Educação que poderá ser acompanhada em directo e com ligação a uma escola.
De há muito que defendo e as boas práticas assim o sugerem que as decisões no que respeita a mudanças em educação devem ser o mais participadas possível envolvendo a generalidade dos actores incluindo os alunos. Não tenho um entendimento idealizado ou romântico do “diálogo” e do “ouvir os alunos” mas creio que importará, de facto, ouvir os alunos, todos os alunos, com real interesse no seu olhar e ideias sobre a sua vida escolar.
Do meu ponto de vista para além do processo de consulta pública estas iniciativas deveriam ter sido promovidas antes da definição do Perfil de Competências do Aluno para o Séc. XXI.
Nesta altura e apesar de sempre entender que, por princípio, criar espaços de discussão em torno da educação é sempre positivo, este “Dia do Perfil do Aluno” parece-me mais uma cerimónia litúrgica de consagração. Não é que seja grave, trata-se de política.
No entanto, como aqui escrevi e afirmei publicamente o Perfil do Aluno parece-me uma boa base de trabalho para o processo de educação e formação dos alunos.

domingo, 14 de janeiro de 2018

E ASSIM VÃO OS DIAS

Três notas breves a propósito do dia de ontem.
O ano de 2018, tal como o de 2017, está sob o signo do Fogo. A tragédia de Tondela marca o dia de ontem. Não se conhecem pormenores apenas que tudo o que podia correr mal, correu dramaticamente mal. 
Também se registou a vitória de Rui Rio sobre o Menino Guerreiro para a liderança do PSD. Santana Lopes já avisou que vai andar por aí e Rui Rio, se atentarmos no mandato no Porto, apresentará uma política sem rasgo nem visão, um exercício de contabilidade certinha mas sem mundo. Cultura e arte, para além de outras inutilidades, serão certamente matérias que não caberão nesse mundo
Ainda soubemos ontem que Passos Coelho tenciona colocar a acção política em banho-maria e vai “tratar da vida”. Se exceptuarmos um ex-político que foi estudar para Paris após a saída de cena e considerando os usos e costumes do reino, Passos Coelho, com base no seu extenso e sólido currículo profissional e mediante concurso, irá ocupar lugares de administração em múltiplas empresas onde desempenhará a emergente e relevantíssima função profissional de facilitador. Muito provavelmente e aproveitando o seu fortíssimo currículo académico e científico candidatar-se-á também à docência universitária numa prestigiada universidade portuguesa ou estrangeira onde inspirará e ensinará as novas gerações. Terá pela frente provas de selecção difíceis mas conseguirá.
E assim vão os dias.

sábado, 13 de janeiro de 2018

A LER "O QUE FAZ UM BOM LEITOR?"

Em texto no Público, “O que faz um bom leitor?”, o Professor João Marôco, coordenador do PIRLS de 2016, procede a uma análise dos resultados  e conclui:
Em suma, os alunos com melhores desempenhos no PIRLS 2016 são confiantes nas suas capacidades (de leitura); provêm de agregados familiares com mais recursos educativos; sentem-se integrados na escola; e demonstram ter competências de leitura à entrada no 1.º ciclo de escolaridade. Estes alunos frequentam escolas onde é dada maior ênfase ao sucesso escolar; os professores sentem que os seus alunos têm vontade de terem sucesso escolar; a síntese das ideias principais do texto são as atividades de ensino mais eficazes; onde os "impedimentos ao ensino devido a limitações dos alunos são reduzidos; e onde os encarregados de educação têm expetativas elevadas sobre o desempenho dos seus educandos.
Pois é meu caro João, esta síntese associa-se ao que de há muito se sabe em matéria de aprendizagem da leitura e que em bom rigor informa muito do que é feito nas escolas apesar do peso de variáveis exteriores à escola como literacia e expectativas dos pais e encarregados de educação que se  repercutem de várias formas nem sempre directas no trajecto de aprendizagem dos alunos.
Na mesma linha, em suma, um bom leitor constrói-se desde o início do processo educativo. Desde logo assume especial importância o ambiente de literacia familiar e o envolvimento das famílias neste tipo de situações, através de actividades que desde a educação pré-escolar e 1º ciclo deveriam, muitas vezes são, estimuladas e para as quais poderiam ser disponibilizadas aos pais algumas orientações que se repercutiriam nas suas expectativas e no exercício da parentalidade.
Nos primeiros anos de escolaridade é fundamental uma relação estreita com a leitura, não só com os aspectos técnicos, por assim dizer, da aprendizagem da leitura e da escrita da língua portuguesa, mas um contacto estreito e regular com a actividade de leitura, seja do que for, considerando motivações e culturas diferenciadas apresentadas dos alunos.
Mas mais do que as razões, e todas contribuirão para a situação que temos, é importante, diria imprescindível, que nos convencêssemos todos, professores, pais e outros actores, que só se aprende a ler, lendo, só se aprende a escrever, escrevendo, só se aprende a andar, andando, só se aprende a falar, falando, etc., etc.

sexta-feira, 12 de janeiro de 2018

IMAGINE

A imprensa de ontem e hoje faz ampla referência ao Relatório “PROVAS FINAIS E EXAMES NACIONAIS - PRINCIPAIS INDICADORES - Ensino Básico e Secundário – 2017” produzido pela Direcção-Geral de Estatísticas da Educação e Ciência e pelo Júri nacional de Exames.
Os dados são extensos, parece importante considerar alguns indicadores globais mas mais útil será a análise e o trabalho a desenvolver pelas escolas.
Dos dados e em síntese releva o aumento que se saúda da percentagem de alunos que no 3º ciclo e ensino secundário cumprem trajectos sem retenção durante o ciclo e avaliações positivas nas provas finais e exames nacionais embora globalmente ainda não sejam a maioria. Estes resultados são consistentes com a melhoria que tem vindo a verificar-se também nos estudos internacionais, designadamente no PISA.
Mantém-se a fortíssima associação entre as condições sociodemográficas dos alunos e o seu desempenho escolar, as assimetrias de natureza regional apesar do bom desempenho de algumas escolas em distritos com resultados globais mais baixos e acentua-se a discrepância habitual de resultados entre rapazes e raparigas.
A reflexão sobre estes indicadores pode direccionar-se numa perspectiva de olhar para o “copo meio cheio” e sublinhar, justamente, o trabalho desenvolvido por alunos e professores que permitiram a subida ou olhar para o “copo meio vazio” e identificar o que ainda temos de caminhar.
Muitas vezes tenho falado por aqui sobre estas questões e para não me repetir, coisa que como se sabe é característica dos velhos, proponho uma outra ideia.
Pondo o “instrumental” que está em baixo como fundo sonoro imaginemos.
Imaginemos como seria se tivéssemos estabilidade e coerência nas políticas educativas.
Imaginemos como seria se tivéssemos um sistema descentralizado com real autonomia das escolas e sem a carga burocrática que pressiona as escolas e os professores.
Imaginemos como seria se fosse possível retirar a educação da baixa política da partidocracia do Portugal dos Pequeninos.
Imaginemos como se seria se existissem apoios competentes, adequados e suficientes mobilizados em tempo oportuno face a dificuldades de alunos, de todos os alunos, e professores.
Imaginemos como seria se as mudanças quando necessárias, e são necessárias num sistema como o da educação seriam pensadas, discutidas e participadas, com calendários de operacionalização adequados e com avaliação obrigatória.
Imaginemos como seria se, tal como os alunos confiam nos professores, assim as sucessivas equipas ministeriais valorizassem o seu trabalho nas diferentes dimensões em que tal deve acontecer.
Imaginemos como seria se tanta coisa que é feita ao lado da escola fosse feita com a escola.
Imaginemos …
Até aos próximos resultados a serem divulgados.

quinta-feira, 11 de janeiro de 2018

DOS PROFESSORES

É impossível ir acompanhando a narrativa sobre os problemas profissionais dos professores relativos à organização, acesso e progressão na carreira, ao estatuto salarial e valorização profissional, sem perceber de forma inquietante o grau de amargura e desânimo que se sente em muitos dos discursos que se ouvem, quer nas escolas, quer nas redes sociais. Não estou a pensar nos discursos que resultam também do contínuo envolvimento do universo da educação nos meandros da partidocracia e respectiva conflitualidade de interesses, mas de um genuíno sentimento de cansaço e desejo de mudança que não se vislumbra.
A esmagadora maioria dos professores é-o por escolha e acredito que se voltassem atrás voltariam a querer ser professores, uma função que tal como a de “pai/mãe” e como costumo dizer, parece não ter reforma ou férias, basta ouvi-los quando estão nesta situação, continuam empenhados a falar de … educação. Não, não tenho uma visão idealizada ou romântica dos professores, como não tenho das crianças e adolescentes ou dos pais. Acontecem muitas situações que não deveriam e por isso, tantas vezes o afirmo deveríam existir dispositivos de regulação eficazes mas isto não invalida o que afirmei.
Os professores estão cansados de ser professores assim, desvalorizados, objecto de uma relação de desconfiança por parte de sucessivas equipas ministeriais e sem horizontes claros de mudança que também sei não ser fácil mas que tem de ser possível.
Em nome do futuro.
Não se esqueçam.

quarta-feira, 10 de janeiro de 2018

A ACOMPANHAR

No Público está a referência a uma iniciativa que pela descrição me parece interessante e a acompanhar. No concelho de Viana do Castelo inicia-se uma parceria que envolve 3000 alunos de sete agrupamentos e um grupo de 30 investigadores enquadrados no Centro Interdisciplinar de Investigação Marinha e Ambiental, o Instituto de Ciência e Inovação para a Bio-Sustentabilidade da Universidade do Minho e o Instituto Politécnico de Viana do Castelo, alguns dos parceiros do projecto promovido pelo Geoparque Litoral de Viana do Castelo.
Os alunos envolvidos nesta “Rede Escolar de Ciência e de Apoio à Investigação Científica”são do 1º ciclo ao ensino secundário.
A promoção em contexto de maior operacionalidade, com meios e recursos adequados, com equipamentos laboratoriais nem sempre presentes nas escolas e com o envolvimento científico de outros participantes parece um bom contributo para o desenvolvimento da literacia científica dos alunos e comunidades.
Não está evidentemente em causa o trabalho habitualmente realizado por escolas e docentes nesta área, os resultados crescentes no PISA são um indicador positivo, mas pode ser importante a existência de outros contributos e abordagens com reflexos na desejada integração curricular.
É de acompanhar.

LIVRARIAS, LIVROS E LEITORES

Mais um sinal dos tempos que atravessamos, encerrou discretamente mais uma livraria. Desta vez foi a a Livraria Aillaud & Lellos um dos estabelecimentos distinguidos na iniciativa “Lojas com História”. O mercado não se compadece como minudências como cultura e espaços culturais e a Rua do Carmo, Lisboa, perde mais um espaço emblemático.
É verdade que os indicadores têm vindo a evidenciar menor compra de livros e, por outo lado, muitos dos livros mais vendidos também se encontram nos grandes espaços comerciais, tudo se vende no sítio onde se vende tudo.
Algumas notas.
Em primeiro lugar e em termos mais genéricos, a cultura em Portugal é um produto de luxo, veja-se também o preço dos CDs e dos espectáculos. O universo da cultura vive e vai viver numa apagada e vil tristeza orçamental. Sabe-se como os museus têm dificuldade em manter portas abertas, para não falar de investimento e manutenção nos respectivos espólios. Aliás a esmagadora maioria dos visitantes nos nossos museus são estrangeiros. Muito do que se realiza em Portugal em matéria de cultura está dependente de apoios privados, carolice e mecenato. A crise recente agravou a situação.
Por outro lado, e no que respeita ao mercado livreiro, creio que uma das grandes razões para o preço dos livros será o reduzido volume de consumo desse bem por parte do cidadão comum. De facto, à excepção de alguns, poucos, nomes, edições reduzidas dificultarão, por questões de escala, o abaixamento do preço. Algumas editoras ou grupos editoriais têm experimentado o lançamento de colecções com obras a mais baixo custo, mas muitos dos potenciais compradores dessas obras, já as terão adquirido pelo que, mais uma vez será difícil que sejam bem-sucedidas essas edições. Se considerarmos o caso particular da poesia a situação pode ser um pouco mais negra, basta atentar nas montras ou nas listas dos mais vendidos.
Acresce que o mercado assenta cada vez mais numa meia dúzia de pontos de venda que asseguram o grosso do "rendimento" e por uma distribuição que trata, muitas vezes, o livro como apenas um produto e não o distribui como um "bem". Importa ainda considerar o aumento exponencial das vendas on-line cujo circuito acaba por deixar de fora a livraria mais tradicional, espaço de descoberta, troca de informação e partilha com gente conhecedora que conhece e ama os livros
No entanto, penso que a grande aposta deveria ser no leitor e não no livro, ou seja, criando mais leitores, talvez as edições, que poderiam em todo o caso ser menos exigentes em papel e grafismo, ficassem mais acessíveis como se verifica noutros países. Esta batalha ganha-se na família, na escola e na comunicação social.
Como várias vezes tenho afirmado e julgo consensual, a questão central, embora importante, não assenta nos livros, bibliotecas (escolares ou de outra natureza) ou na presença crescente e atractiva dos "tablets", a questão central é o leitor, ou seja, o essencial é criar leitores que, quando o forem, procurarão o que ler, livros por exemplo, espaços ou recursos, biblioteca, casa ou escola e suportes diferente, papel ou digital. Estes leitoras talvez possam alimentar as livrarias.
Creio que também estaremos de acordo que um leitor se constrói desde o início do processo educativo. Desde logo assume especial importância o ambiente de literacia familiar e o envolvimento das famílias neste tipo de situações, através de actividades que desde a educação pré-escolar e 1º ciclo deveriam, muitas vezes são, estimuladas e para as quais poderiam ser disponibilizadas aos pais algumas orientações.
Nos primeiros anos de escolaridade é fundamental uma relação estreita com a leitura, não só com os aspectos técnicos, por assim dizer, da aprendizagem da leitura e da escrita da língua portuguesa, mas um contacto estreito e regular com a actividade de leitura, seja do que for, considerando motivações e culturas diferenciadas apresentadas pelos alunos.
Só se aprende a ler lendo, só se aprende a escrever, escrevendo, etc.
É certo que existe em actividade o Plano Nacional de Leitura que, parece, estará a dar alguns resultados, mas na comunicação social generalista o espaço dedicado aos livros é pouco significativo, ainda se mantém veremos até quando o JL, e na comunicação televisiva o panorama não é melhor e o que existe parece pouco eficaz.
Insisto, é um problema de leitores não de livros, aliás e estranhamente, nunca se publicou tanto como agora, aspecto que seria interessante analisar.

terça-feira, 9 de janeiro de 2018

A TRADIÇÃO AINDA É O QUE ERA

Como homem atento às tradições do nosso povo tinha estranhado não ter encontrado este ano a habitual referência à tão estimulante tradição da aldeia de Vale de Salgueiro sita lá lá para os lados das terras bonitas de Mirandela levada a cabo no Dia de Reis.
Pois segundo a tradição é dia de promover o fumo entre a criançada, isso mesmo, as crianças são convidadas a fumar umas cigarradas valentes. Este incentivo advém, evidentemente, dos mais velhos.
Mas a tradição ainda é o que era e este ano até teve repercussão internacional. Muito bem, há que divulgar as nossas tradições.
É deveras entusiasmante, lembro-me de uma reportagem televisiva num dos últimos anos ter mostrado um gaiato de 8 anos que já tinha fumado 23 cigarros enquanto se ouviam pais e avós entusiasmados com as performances dos “piquenos” e, estranhamente, uma mãe afirmou ter começado assim e ficado fumadora. Num outra reportagem uma criança de 10 anos avisava que "ia fumar um maço inteiro" enquanto passeava pela aldeia com um grupo de "fumadores" da sua idade todos de cigarro na mão. Tradicional e entusiasmante.
No sentido de aumentar o zelo com que se deve cuidar as heranças que o nosso povo deve manter, sugiro que, entre outras tradições, considerem a hipótese de manter a discriminação de género pois o lugar da mulher é em casa e, se trabalhar fora, deve ganhar menos, é a tradição. O trabalho em casa deve ser também realizado pelas mulheres porque os homens tradicionalmente não lhe tocam. Para que a tradição seja o que era, uma “carga de porrada” na mulher e nos filhos de vez em quando é bom para que não se esqueçam de quem manda. Deve trabalhar-se de sol a sol e sem direitos como é de tradição.
Para bem cuidar da criançada neste tempo de frio, a tradição determina umas sopinhas de cavalo cansado que aquecem que é uma beleza. Se houver alguma dificuldade na escola teremos as tradicionais orelhas de burro ou umas reguadas com a "menina de cinco olhos", já em desuso vá lá saber-se porquê.
Finalmente, a miudagem deve começar a trabalhar de bem pequeno, 12 ou 12 anos no máximo, porque a tradição deve recuperar-se e manter-se e um dinheirinho a mais dá sempre jeito para mais umas litradas para aquecimento e uns macitos de tabaco para alimentar a tradição deste bom povo português.
Temos que cultivar as nossas tradições.

EDUCAÇÃO E AUTONOMIA

O Público de hoje traz um trabalho interessante sobre a mobilidade urbana das crianças. Se pudessem escolher oito em cada dez crianças entre os seis e os 11 anos inquiridas num estudo da UTAD e a frequentar um agrupamento escolar no norte do país iriam a pé para escola.
Tal como outros estudos têm evidenciado predominam os que se deslocam em transporte motorizado familiar e apenas 24% se deslocam a pé ou de bicicleta.
Quando inquiridos sobre eventual desconforto nas deslocações a pé para a escola referem a questão do trânsito excessivo, passeios e passadeiras e sé depois questões de insegurança ou orientação, medo de se perderem.
Apesar das limitações do estudo inibindo a generalização dos dados sabemos que a globalmente predomina a utilização dos meios motorizados familiares ou públicos no acesso à escola.
É também claro que a para além das questões logísticas ou de acessibilidade importa considerar variáveis relativas aos contextos e à autonomia das crianças. Aliás, as crianças ouvidas neste estudo expressam o desejo dessa autonomia. Algumas notas repesacadas.
Questões desta natureza, a autonomia de crianças e adolescentes são-me frequentemente colocadas por pais ou educadores, a idade em que se pode começar a sair à noite, a ir sozinho para escola, matéria sobre a qual colaborei num trabalho do DN, brincar na rua, etc.
Na verdade, não entendo que existam respostas definitivas para questões desta natureza, sendo certo que a segurança e bem-estar das crianças devem ser uma prioridade absoluta.
A decisão de pais e educadores a inquietações ou dúvidas desta natureza, recordo que no que diz respeito ao ficar só em casa muitas famílias confrontam-se com sérias dificuldades para assegurar a guarda dos filhos durante os prolongados horários laborais, deve ter subjacente uma outra matéria de natureza mais vasta e importante, a autonomia das crianças e a forma como a promovemos ... ou não.
De há muito e sempre que penso ou falo de educação me lembro de um texto de Almada Negreiros em que se afirma "... queria que me ajudassem para que fosse eu o dono de mim, para que os que me vissem dissessem: Que bem que aquele soube cuidar de si". Este enunciado ilustra, do meu ponto de vista, a essência da educação, seja familiar ou escolar, em qualquer idade.
De facto, o que se pretende num processo educativo será a construção de gente que sabe tomar conta de si própria da forma adequada à idade e à função que em cada momento se desempenha. Este entendimento traduz-se num esforço contínuo de promover a autonomia das crianças e jovens para que "saibam tomar conta de si próprios", no fundo, a velha ideia de, "ensinar a pescar, em vez de dar o peixe".
Parece-me fundamental que adoptemos comportamentos que favoreçam esta autonomia dos miúdos e dos jovens. No entanto, é minha convicção que por razões que se prendem com os estilos de vida, com os valores culturais e sociais actuais, com as alterações das sociedades, questões de segurança, por exemplo, estamos a educar os nossos miúdos de uma forma que não me parece, em termos genéricos, promotora da sua autonomia. A rua, a abertura, o espaço, o risco (controlado obviamente), os desafios, os limites, as experiências, são ferramentas fortíssimas de desenvolvimento e promoção dessa autonomia. É neste contexto que devem ser colocadas, trabalhadas e decidas as dúvidas sobre o que criança ou adolescente pode ou não fazer só.
Por outro lado, os miúdos são permanentemente bombardeados com saberes e actividades que serão obviamente importantes para o seu desenvolvimento e para o seu futuro mas, ao mesmo tempo, são miúdos, pouco autónomos, pouco envolvidos nas decisões que lhes dizem respeito cumprindo agendas que lhes não dão margem de decisão sobre o quê e o porquê do que fazemos ou não fazemos. Acabam por se tornar menos capazes de decidir sobre o que lhes diz respeito, dependem da "decisão de quem está à sua volta, companheiros ou adultos.
Um exemplo, para clarificar. Um adolescente não habituado a tomar decisões, a fazer escolhas, mais dificilmente dirá não a uma oferta de um qualquer produto ou um a convite de um colega para um comportamento menos desejável. É mais difícil dizer não do que dizer sim aos companheiros da mesma idade. Num sala de aula é bem mais provável que um adolescente tenha um comportamento adequado porque "decida" que é assim que deve ser, do que por "medo" das consequências.
Só miúdos autónomos, autodeterminados, informados e orientados sobre os riscos e as escolhas serão mais capazes de dizer não ao que se espera que digam não e escolher de forma ajustada o que fazer ou pensar em diferentes situações do seu quotidiano. Este entendimento sublinha a importância de em todo processo de educação, logo de muito pequeno, em casa e na escola, se estimular a autonomia dos miúdos.
Creio que este entendimento está pouco presente em muito do que fazemos em matéria de educação familiar ou escolar e para todos os miúdos.
Todos beneficiariam, miúdos e adultos.

segunda-feira, 8 de janeiro de 2018

DOS PAIS AMIGOS E OUTRO DIÁLOGO IMPROVÁVEL

O Observador apresenta uma peça sobre um tema curioso e com uma formulação que é muitas vezes abordada em encontros que mantenho com pais e encarregados de educação, “os pais são ou devem ser amigos dos filhos?
Se entendermos por amigo alguém com quem trocamos afecto e temos uma relação próxima os pais serão amigos dos filhos. No entanto, o papel de “pai” está para além do papel de amigo, nenhuma dúvida sobre isso, creio. O exercício da parentalidade pressupõe e exige uma função reguladora do comportamento e da socialização, a construção de um espaço familiar  de afecto, vinculação e aconchego, a promoção da autonomia, enfim, uma relação que em muitos aspectos não é da mesma natureza ou mesmo compatível com o papel de amigo. Não está, evidentemente, em causa a importância dos amigos, são um bem de primeira necessidade, com outro papel.
No entanto, é bom que não nos iludamos, é muito bonito, é trabalhoso e nem sempre é fácil ser pai, não vale a pena acumular e ser o que muitos pais se afirmam com alguma ingenuidade e voluntarismo, são pais e amigos.
A propósito mais um diálogo improvável.
João, já te tenho dito que não deves fazer isso.
Pai, sabes que na vida importa ser persistente.
João, será que nunca estaremos de acordo?
Pai, sabes como a diferença de opiniões é positiva.
João, consegues sempre surpreender-me e fazer o que não espero que faças.
Pai, toda a gente sabe como a inovação e a criatividade são importantes.
João, fazes-me exasperar.
Pai, como sabes devemos ser tolerantes.
João, às vezes não consigo entender-te.
Pai, acho que não preciso de te dizer que é a dúvida que nos faz crescer.
João, porque teimas em ser diferente de toda a gente.
Pai, sempre me disseste que deveria ser eu próprio, não ser igual a ninguém. Aliás, como sabes, ninguém é igual a ninguém.
João, tens que ganhar sempre.
Pai, hoje em dia, como sabes, é importante ser competitivo.
João, confessa, por vezes não te sentes cansado de ser assim.
Pai, como muitas vezes me dizes, temos que ter resistência, a vida não é fácil.
João, desisto.
Pai, isso é fraqueza, assim não vais ser ninguém na vida.

domingo, 7 de janeiro de 2018

ANJO DA GUARDA

    (Foto de Mico)

Eu tenho um guarda
Que é um anjo
Que me protege
De noite e de dia
A toda a hora
E em todo lado
Posso contar
Com a sua vigia
Não usa arma
Não usa a força
Usa uma luz
Com que ilumina
A minha vida

(António Variações)
A todos os anjos da guarda na vida dos miúdos e a lembrança dos muitos que os não têm.

sábado, 6 de janeiro de 2018

DO BULLYING

Uma chamada de atenção para o texto de David Rodrigues no Público em que aborda a problemática do bullying.
Nunca será demais a atenção dedicada a esta questão, o sofrimento que atinge alguns crianças e adolescentes vítimas das várias formas de bullying é imenso.
Uma nota para sublinhar o emergente cyberbullying que contrariamente ao bullying presencial não tem “intervalos”, normalmente os fins-de-semana pois ocorre predominantemente nos espaços escolares.
Além disso, não sendo presencial o(s) agressor(es) não tem, ou não têm, uma percepção clara do nível de sofrimento infringido que em algumas circunstâncias pode funcionar como “travão” e inibir o comportamento agressivo.
Em termos globais, sabe-se também que a ocorrência de situações de bullying é bem superior ao número de casos que são relatados. Uma das características do fenómeno, nas suas diferentes formas é justamente o medo e a ameaça de represálias a vítimas e assistentes que, evidentemente, inibem a queixa pelo que ainda mais se justifica a atenção proactiva e preventiva de adultos, pais, professores ou funcionários.
Este cenário determinaria, só por si, um empenhado investimento em recursos e dispositivos que procurassem minimizar o volume de incidências, algumas das quais de gravidade severa.
Também por estas razões é fundamental uma atitude ajustada face a este tipo de comportamentos.

NO DIA DE REIS, UMA HISTÓRIA COM UM REI

Era uma vez um sítio onde havia um Rei. As pessoas deste sítio estavam um pouco perplexas com a situação porque nem tinham percebido muito bem como tinha surgido o Rei.
A verdade é que o Rei tinha uma influência enorme na vida das pessoas do sítio. Elas organizavam-se para satisfazer todos os seus caprichos, todas as suas ordens e ir ao encontro das necessidades que o Rei tinha ou que as pessoas julgavam que o Rei sentia.
O Rei era muito variado de humores pelo que nem sempre queria as mesmas coisas, um dia gostava de algo que no dia a seguir detestava. Era esquisito com o que lhe proporcionavam, protestava e mostrava o seu desagrado de forma até bem evidente com tudo e mais alguma coisa, nada parecia agradar-lhe e tudo parecia querer.
Reagia mal à mais pequena contrariedade, que não admitia, pelo que as pessoas temiam estar por perto e tentavam evitar as suas frequentes crises e zangas, durante as quais não tratava muito bem quem estivesse à sua beira.
Esta forma de viver foi-se instalando e as pessoas começaram a sentir-se muito desconfortáveis. Por um lado, observavam que em outros sítios não havia Reis assim e as pessoas viviam de uma forma mas tranquila e, por outro lado, iam entendendo que o Rei iria progressivamente ficando mais Rei e que a sua vida ficaria certamente mais complicada.
Um dia, as pessoas, aproveitando o sono do Rei, juntaram-se e decidiram, "A nossa família já não aguenta mais, a partir de hoje, o João faz sete anos, e não podemos mais aceitar que ele se porte como um Rei sem limites, vamos começar a dizer-lhe que não, que não pode ser tudo como ele quer. O João vai ser um João, não o Rei que tem sido até aqui. Está decidido".
Não sei como acabou a história daquele Rei, mas parece que o João anda mais feliz, só era um Rei porque o deixaram. E as pessoas deste sítio, perdão desta família, também estão mais felizes.

sexta-feira, 5 de janeiro de 2018

A HISTÓRIA DO RAPAZ DESENCANTADO OU UM PROBLEMA DE ORIENTAÇÃO VOCACIONAL

O Professor Velho, o que está na biblioteca e fala com os livros, ia a atravessar o pátio da escola e cruzou-se com o Paulo, um seu "velho conhecido".
Olá Paulo, tudo bem contigo?
Tá-se bem Velho, olha lá, quando é que eu já não preciso de vir à escola?
Não percebo.
Sou obrigado a vir para a escola até quando? É até ao 12º?
Sim, tu vais ter de cumprir 12 anos de escolaridade obrigatória e isso pode chegar ao 12º. Porque perguntas isso?
Velho, até aos 18 anos é bué da tempo, eu já sei ler, sei escrever, sei resolver problemas, já não preciso de saber mais coisas.
Mas isso é pouco para teres uma profissão que gostes.
Velho, a minha irmã Joana andou bué da tempo na escola, foi para a universidade para ser, parece que engenheira e não trabalha, não arranja trabalho.
Certo, às vezes é difícil mas a maioria das pessoas tem trabalho.
Mas são as pessoas que conhecem gente bué importante e que pedem, é o que diz o meu pai.
Não é bem assim, as coisas da vida das pessoas não estão fáceis mas podem mudar.
Não Velho, não muda nada, as pessoas que mandam passam o tempo a dizer mal uns dos outros, só pensam nos interesses deles e não querem saber dos outros, diz o meu pai.
Eu acredito que as coisas podem ficar melhores e que era bom que continuasses na escola mais tempo, mas estou preocupado contigo.
Não te preocupes Velho, amanhã ainda venho, tenho teste de História e quero safar-me.
E lá foi o Paulo, deixando o Professor Velho inquieto com a dificuldade que todos sentimos em ajudar os mais novos a acreditar que lá para diante haverá uma vida que mereça um esforço para ser construída.

PRECÁRIA DE VIDA!

Segundo um estudo do Observatório sobre Crises e Alternativas, do Centro de Estudos Sociais a economia portuguesa, mesmo nesta fase de melhores resultados, mostra um trajecto claro de precariedade nas relações laborais.
Como é sabido, os gurus do neoliberalês entendem a que a flexibilidade do mercado de trabalho é uma das peças fundamentais para o desenvolvimento económico.
nesta perspectiva Portugal está no bom caminho, tem um dos maiores indicadores europeus de contratação a prazo.
Neste cenário, os desequilíbrios fortíssimos entre oferta e procura em diferentes sectores, a natureza da legislação laboral favorável à precariedade e insensibilidade social e ética de quem decide, promovem a proletarização do mercado de trabalho mesmo em áreas especializadas ou mesmo o recurso a uma forma de exploração selvagem com uma maquilhagem de "estágio" sem qualquer remuneração a não ser a esperança de vir a merecer um emprego pelo qual se luta abdicando até da dignidade.
Acontece ainda que alguns dos vencimentos que se conhecem, atingindo também camadas altamente qualificadas, não são um vencimento, são um subsídio de sobrevivência.
É justamente a luta pela sobrevivência que deixa muita gente, sobretudo jovens sem subsídio de desemprego e à entrada no mundo do trabalho, sem margem negocial, altamente fragilizadas e vulneráveis, que entre o nada e a migalha "escolhem amigavelmente" a "migalha", ou mesmo uma remota hipótese de um emprego no fim de período de um indigno trabalho gratuito.
É um desastre, grave e dramático é que as pessoas são "obrigadas" a aceitar. Os mercados sabem disso, as pessoas são activos descartáveis.
Acontece que a precária de vida paga em migalhas que a maior parte da gente nova por cá vai arrranjando, em alternativa ao desemprego ou à partida para longe, impede projectos de vida viáveis, com potencial de realização pessoal, com horizontes razoáveis, que possam incluir projectos de maternidade ou paternidade necessários num país que atravessa um profundo inverno demográfico. Inibe a criação de condições de autonomia e independência face às gerações dos seus pais que também têm os seus rendimentos ameaçados, Tudo para eles é precário.
Mas .... é a economia, estúpido.
Parece que o desenvolvimento se consegue assim, com precariedade e baixos salários, dizem os cérebros do neoliberalês que de precário apenas têm garantido o corpo que habitam e só porque ainda não foram capazes de comprar a eternidade.
Tudo o resto lhes está assegurado.

quinta-feira, 4 de janeiro de 2018

Ó SENHOR

(Foto de Mico)

Ó Senhor. Ó Senhor.
Era para dizer … Era para dizer … Era para dizer …
Era para dizer que não se esqueça da gente. A gente precisa.

MIÚDOS COM FRIO

A generalidade da imprensa de ontem referia a existência de muitas escolas em que as aulas decorrem com frio excessivo por falta de verba para fazer funcionar os dispositivos de aquecimento ou porque, simplesmente, estes dispositivos não existem. O ME veio afirmar que não existe um problema de natureza orçamental, os orçamentos das escolas podem ser reforçados a pedido dos directores, portanto, se existe frio nas salas, senhores directores, peçam. Quanto aos equipamentos ...
A verdade é que apesar da do nosso posicionamento mediterrânico a questão do frio nas escolas é recorrente a cada Inverno. As políticas educativas recentes têm tentado lidar com a questão mas de forma insuficiente. A organização da “festa” da Parque Escolar não terá enviado convites para todas escolas pelo que algumas ficaram de fora enquanto outras tiveram tratamento VIP e desperdício na escolha dos materiais e na natureza das intervenções.
Por sua vez, a equipa de Nuno Crato procurou combater o frio aumentando o número de alunos por turma criando, assim, ambientes educativos mais aconchegados e calorosos.
No entanto e ao que parece, o resultado continua a ser o frio que se passa em algumas escolas.
Sempre que penso nesta questão, miúdos com frio, recordo-me, já aqui o escrevi, da narrativa de Juan José Millás em "O Mundo" quando enuncia, “Quem teve frio em pequeno, terá frio para o resto da vida, porque o frio da infância nunca desaparece”.
Na verdade, no Inverno ou até no Verão existem muitos miúdos que passam frio, às vezes muito frio, e nem sempre conseguimos dar por isso. Acontece até que alguns deles sentem frio em ambientes muito aquecidos ou mesmo no Verão, como disse. Não se trata do frio que vem de fora, daquele de que falam os alertas coloridos que nos fazem no inverno, que seria “fácil” minimizar se assim se quisesse. É, antes, o frio que está à beira, um bloco de gelo disfarçado de família, de escola ou de instituição de acolhimento, é o frio que vem de dentro e deixa a alma congelada. Do frio que vem de fora, apesar de incomodar, acho que, quase sempre, nos conseguimos proteger e proteger os miúdos, mas dos frios que estão à beira e dos que vêm de dentro nem sempre o conseguimos fazer porque também nem sempre os entendemos e estamos atentos ao frio que tolhe muitas crianças e adolescentes.
Apesar de sentir confiança na resiliência dos miúdos, expressa em muitíssimas situações de gente que sofreu e resistiu a experiências dramáticas, uns mais que outros naturalmente, parece-me fundamental que estejamos atentos aos frios da infância.
Muitas vezes, como diz Millás, quem teve frio em pequeno terá mesmo frio no resto da vida.
Quando olhamos para muitos adultos à nossa volta parece claro o frio que terão passado na infância.

quarta-feira, 3 de janeiro de 2018

AGORA O SEGUNDO PERÍODO

Inicia-se hoje o segundo período escolar. Mais do que o terceiro creio que é este o período das decisões. Na verdade, embora falte o terceiro trimestre este que agora começa parece-me ser o mais importante no calendário escolar.
Quando o primeiro trimestre corre bem e o segundo decorre de forma igualmente positiva o sucesso do ano de trabalho escolar estará praticamente assegurado.
Se os dois primeiros períodos não se desenvolverem de forma positiva torna-se, obviamente, bem mais difícil a recuperação durante o terceiro período e o risco de reprovação é muito elevado.
Assim, o segundo período é um tempo em aberto, um tempo que permitirá manter bons resultados, recuperar de algumas dificuldades ou “certificar”, antecipando, o insucesso.
É neste aspecto que centro estas notas. De facto, alguns alunos devido aos seus resultados menos positivos no primeiro trimestre, à sua história escolar que poderá incluir eventuais dificuldades ou até pela imagem que deles foi construída, integrarão provavelmente um grupo, “ os que não vão lá”, para utilizar uma terminologia frequente no meio escolar.
Dito de outra maneira, a escola, algumas vezes sem se dar conta, outras por ausência de meios ou disponibilidade e outras ainda pela convicção de que é "normal" que nem todos aprendam apesar de possuírem capacidades para tal, constrói sobre alguns alunos uma baixa ou nula expectativa de sucesso que não é alheia ao “eles não vão lá” e cujos efeitos negativos estão estudados.
Neste cenário, a escola pode vir a desistir deles e eles podem vir a desistir da escola através de processos que nem sempre são conscientes, quer por parte da escola, quer por parte de alunos e pais.
Curiosamente, muitos destes alunos que “não vão lá” são reconhecidos como crianças ou adolescentes inteligentes, dotados, de tal maneira que "se eles quisessem" teriam sucesso. O problema é que com alguma frequência, por menor atenção, pelo número de alunos por turma e/ou por falta de recursos, não conseguimos que eles tenham sucesso, tal como eles não conseguem mobilizar eficazmente as suas capacidades para serem bem-sucedidos. Eu sei que a afirmação é forte e pode ser injusta em muitas situações, mas existem alunos de quem a escola, por várias razões, parece ter “desistido”.
Importa, pois, iniciar este segundo período com expectativas positivas face ao trabalho de alunos e de docentes. Por outro lado, é também importante que as expectativas positivas e confiança nas capacidades dos alunos lhes sejam claramente expressas por pais e professores. Finalmente é essencial que os apoios a eventuais dificuldades de alunos e professores estejam
disponíveis, sejam e competentes e estruturados em tempo oportuno.
O risco de insucesso e exclusão na escola é também o primeiro grande risco, ou mesmo a primeira etapa, da exclusão social.
Eles vão lá. Bom trabalho e Bom Ano

DA SÉRIE TRUMPICES - O MEU É MAIOR QUE O TEU

Não fosse o risco do mundo estar nas mãos de dois idiotas irresponsáveis, Trump e Kim Jong-un, a coisa até poderia ter graça.
O rapaz da Coreia diz que tem um botão, o rapaz dos EUA, vai daí e diz que também tem um botão mas é maior e mais poderoso.
De onde é que eu me lembro destas discussões?
O mundo ensandeceu.
Meu caro 2018 vê se consegues alguma coisa com estes imbecis. São perigosos.

terça-feira, 2 de janeiro de 2018

CRÓNICA DE UM VETO ANUNCIADO

Estava escrito nas estrelas. O vergonhoso processo e resultado de alteração da legislação reguladora do financiamento dos partidos não podia ter outro fim.
Marcelo Rebelo de Sousa com o seu reconhecido tacto político fez o que lhe ofereceram de mão beijada, “entalar” os deputados, vetando a lei e sair por cima dessa gente manhosa. Não suscitou questões de inconstitucionalidade que, segundo o que se foi ouvindo e lendo de alguns constitucionalistas, existiam mesmo pois o efeito mediático e político era menor. A mensagem de Marcelo a travar a negociata dos deputados (partidos) é um excelente furo político e um excelente contributo para a popularidade do Presidente.
Deixou antes o assunto marinar e depois ferver em lume brando e agora … Meus amigos, vocês que arranjaram esta manhosice …desemerdem-se!
Como é óbvio a lei morreu, a maioria que ao aprovou não terá, coragem, por assim dizer, para a voltar a aprovar.
Um episódio que não podia ter acontecido e é mais um pedrada na saúde da democracia. No entanto, pouca coisa estranhamos nesta pantanosa pátria nossa amada.

HOJE É DIA 2 DE JANEIRO DE 2018

Acabou o Espírito Natalício.
Terminou a festa vivida, inventada, fingida, sofrida ou ignorada da chegada do Ano Novo.
Hoje é dia 2 de Janeiro, amanhã será dia 3 de Janeiro. Depois será dia 4 de Janeiro. Depois …
...
...
Depois regressa o Espírito Natalício e chega um outro Ano Novo.
Temos que reinventar o calendário e o tempo.
A partir de hoje, dia 2 de Janeiro.

segunda-feira, 1 de janeiro de 2018

GOSTEI DE LER, "NÃO SEI FAZER UM BALANÇO DO ANO"

Gostei de ler a crónica de Bárbara Wong no Público, “Não sei fazer um balanço do ano”.
Um retrato do tempo, é também um balanço.
“(…)


(…)”

CARTA AO ANO NOVO

Meu caro Ano Novo,

Em primeiro lugar, em nome da hospitalidade e do bem receber que caracteriza os portugueses é com a maior satisfação que, como de costume, te dou as boas vindas ainda que, devo confessar, tal como no ano passado com alguma apreensão.
O prazo de validade do Ano Velho terminou e chegaste, sejas bem aparecido. Não te conheço e portanto não sei exactamente a experiência que possuis, mas creio que como todos os novos não será muita, é assim a vida, não há volta a dar.
Não te quero assustar mas não vais ter tarefa fácil, antes pelo contrário, e parece-me útil que possas conhecer um pouco da realidade que te espera, pelo menos aqui em Portugal, para que te possas organizar no sentido de fazeres o melhor possível.
Temos um Governo assente numa fórmula de apoio política que é inédita e que pouca gente acreditava que funcionasse, até lhe chamaram a geringonça. Vais, aliás perceber que gostamos de dar nomes ao que já tem nome.
Contrariamente ao que se anunciava, houve até gente responsável que vislumbrava a chegada do diabo, a coisa não tem corrido muito mal e até aquela gente lá de fora, União Europeia e representantes dos mercados financeiros têm achado que há alguma diferença para melhor.
Para muita gente a mudança ainda não se faz sentir tanto quanto seria desejável. No entanto,respira-se um ar mais tranquilo, menos crispado, o que é bom, mas verás.
Entretanto seria positivo que pudesses dar uma ajuda, bem que precisamos. Estranhamente existe um pessoal que parece desejar que tudo corra mal mas vais ter que te habituar, nós portugueses somos gente complicada.
O teu companheiro Ano Velho que agora partiu deixou muita amargura com tragédias que nos aconteceram, fogos florestais em que tudo o que podia correr mal, correu muito mal, onde muita gente falhou na sua tarefa e o resultado foram muitas vidas tragicamente perdidas. Espero muito que tu, 2018, não tragas fogo no ventre. Como é normal por cá, vais perceber rapidamente, depois de algo correr mal, durante algum tempo ouvem-se promessas e planos … até à próxima tragédia. Toma atenção, faz tu a tua parte, traz algo mesmo Novo.
Logo de início, é bom que saibas que devido apesar da devastadora situação económica que atravessámos nos últimos anos fruto do mau trabalho de uma rapaziada que por aí tem andado e dos maus hábitos que adquirimos, alguns de nós é claro, as expectativas sobre ti são sempre elevadas, toda a gente envie milhares e milhares de mensagens e use as redes sociais para desejar Bom Ano mostrando a maior convicção.
Estás a ver o que te espera Ano Novo. Bom, tu és novo, vais estar “cá para o que der e vier” e eu quero confiar em ti. Sabes, aqui para nós, sou avô dos netos mais bonitos do mundo, trabalho no universo dos mais novos pelo que sou obrigado, por eles e em nome deles, a ser optimista, conto contigo.
Em termos genéricos posso dizer-te que, de acordo com os estudos, somos um povo triste, desconfiado e sem grande esperança no futuro, o que também é animador como vês. No entanto, para compensar, gostamos de parecer uns “gajos porreiros” e bem-dispostos e adoramos, como vês por esta carta, dizer mal de nós. Também perceberás que somos gente solidária, disponíveis para ajudar, mas pouco atentos ao prevenir.
Quem nos governa passa o tempo a dizer que somos o melhor povo do mundo, a gente percebe. Continuamos ainda atordoados com uma carga fiscal pesada como nunca tivemos e … cá vamos, esperando que … pior não fique.
É também muito importante que saibas que temos uma especial inclinação pelo “esquema” ou, como também se diz, “dar um jeitinho”, vais ver a quantidade de jeitinhos que te vão pedir à chegada e a quantidade de “esquemas” a que vais assistir ao longo da tua estadia por cá. Aliás, para além daqueles esquemas a que já nem ligamos, imagina que um antigo Primeiro-ministro esteve preso e agora aguarda em liberdade o desenvolvimento do processo. Perguntarás porquê e a resposta é …. esquemas.
Um dos maiores, senão o maior grupo económico e financeiro português implodiu com custos brutais que ainda nem estão contabilizados, perguntarás porquê … esquemas claro. Os bancos têm estado a implodir e quem nos tem governado vai salvando os interesses da gente grande à custa, adivinha, … isso mesmo, da gente pequena.
Uns tipos com altos cargos na administração pública, estão acusados, adivinha de quê? Isso mesmo, de esquemas. No entanto, vais reparar rapidamente, toda esta gente afirma estar de consciência tranquila. Talvez tu que és Novo lhes possas explicar o que é consciência.
Também é importante que saibas que a maioria das vezes destas coisas resulta … nada. Um povo como nosso, com uma fortíssima matriz judaico-cristã, dá um enorme valor ao perdão, serão, pois, perdoados e … seguem os esquemas.
Normalmente, temos um governo que, tal como qualquer outro que temos tido, acha que faz tudo bem e é incompreendido por toda a gente e temos uma oposição que acha que o governo faz tudo mal, mas não percebemos muito bem o que faria se fosse governo, porque quando é governo a situação é mais ou menos a mesma e acabam por, basicamente responder perante um sindicato de interesses dos chamados mercados, independentemente de quem, nós, os elegeu. A relação política é assente essencialmente no “contrismo”, a oposição está contra tudo o que vem do Governo que está contra tudo o que vem da oposição. De vez em quando surgem umas excepções como ainda bem recentemente aconteceu com quase todos os partidos de acordo sobre a forma de ampliar e desregular o seu financiamento num processo manhoso que os devia fazer corar de vergonha, se a tivessem.
Adoramos auto-estradas, rotundas e centros comerciais. Temos três portugueses que se acham os melhores do mundo mas dois emigraram, o Cristiano Ronaldo, também conhecido por "CR7" e o José Mourinho, o "Special one",o terceiro anda por aí, chama-se Marcelo Rebelo de Sousa e é o nosso Presidente da República: Vais conhecê-lo rapidamente, anda sempre por aí de um lado para o outro a tirar “selfies” e a distribuir afectos, tem tido um papel positivo na descrispação do clima. Acredito que ainda não percebas o sentido disto mas rapidamente acontecerá.
É verdade que existe muita gente com obra grande na ciência ou na cultura mas por cá são matérias de pouco relevo, talvez possas fazer alguma coisa. Aliás, boa parte deles tem abandonado país, não vislumbram por cá um futuro que os segure.
Vais ficar surpreendido com algumas figuras que conhecerás ao longo da tua estadia. Não te falo de ninguém, será mais interessante que vás conhecendo essas figuras e vamos falando. Muitas delas passam regularmente pelas televisões emitindo opiniões sobre tudo e mais alguma coisa sempre com um ar sério e convencidos da sua importância. 
Adoramos programas televisivos sobre futebol onde aparecem uns incendiários mandatados pelos grandes clubes que o estão a matar com ódio e hostilidade semeando ventos e, naturalmente, colhendo tempestades. 
No entanto, meu caro Ano Novo, se estiveres atento, vais perceber que somos um país de poetas que, como sabes, são uns fingidores. Por isso, deves ter reparado que à tua chegada encontraste o povo aos pulos em festas, com ar contente a olhar para o fogo-de-artifício, uma das nossas paixões, apesar da situação que te descrevi sinteticamente.
Renovo os votos de boas vindas e de bom trabalho. Se precisares de alguma coisa, estás à vontade, dispõe.
Um abraço deste velho que sempre espera que o Ano Novo venha melhor e seja Novo naquilo em que este foi velho.

Zé Morgado, 1 de Janeiro de 2018

domingo, 31 de dezembro de 2017

COM VOTOS DE BOM ANO, PREVISÕES PARA 2018

Como é habitual, à entrada de um novo ano são mais do que muitas as tentativas de prever os dias que nos aguardam.
Acotovelam-se "opinadores", comentadores, estudiosos, analistas, especialistas, politólogos, "pessoas conhecedoras" (uma espécie em levar em conta), enfim, uma infinidade de tudólogos que em tudo quanto é comunicação social se "engarrafam" na produção de infalíveis previsões.
Não tenho os dotes necessários nem a intenção de substituir quem quer que seja pelo que deixo um modesto contributo no que respeita a previsões desejando que chegue um Ano à medida das vossas expectativas.
Diz-me a experiência que é sempre de grande e comprovada utilidade.
Bom Ano para Todos.


E SE, POR UMA VEZ, O ANO NOVO FOSSE MESMO ... NOVO!

Vamos então mudar de ano.
Estamos no tempo em que todas as falas e todos os escritos acabam num incontornável Bom Ano Novo. Muito de nós fazem mesmo questão de se preparar a sério para receberem o Ano Novo, de acordo com as posses de cada um, evidentemente. Aliás, o Ano que virá também virá de acordo com as posses de cada um. É sempre assim. E se não fosse?
E se por uma vez, só por uma vez, o Ano Novo fosse mesmo Novo. Por exemplo:
Ser Novo no respeito efectivo pela dignidade, pelos direitos básicos das pessoas e no combate sério e empenhado às desigualdades e à exclusão e pobreza.
Ser Novo na gestão da coisa pública com transparência, justiça e ao serviço das pessoas.
Ser Novo na definição de políticas dirigidas às pessoas e não ao sabor dos endeusados mercados e da agenda da partidocracia.
Ser Novo no recentrar das grandes questões da educação na qualidade dos processos educativos, na tranquilidade e no sucesso do trabalho de alunos e professores.
Ser Novo na construção de uma escola onde coubessem todos os alunos sem que o cumprimento de direitos e a qualidade da resposta pública a todos os que estão na idade de a frequentar pudesse, sequer, ser motivo de discussão.
Ser Novo no combate ao desperdício e à iniquidade de mordomias insustentáveis.
Ser Novo nos discursos e padrões éticos das lideranças políticas, económicas e sociais.
Ser mesmo Novo, estão a ver?
De repente, ao escrever estas notas, lembrei-me do Zé, um jovem com uma deficiência motora significativa com quem me cruzei há anos, que quando falava de alguns dos seus desejos de futuro terminava sempre da mesma maneira, “sonhar? sonhar não custa nada, viver é que custa”.
Que o Ano Novo vos (nos) seja leve.
Tão leve e tão novo quanto possível.

sábado, 30 de dezembro de 2017

AS NOVAS QUALIDADES DAS FAMÍLIAS

No Público encontra-se um trabalho interessante sobre as mudanças na configuração das famílias. Em 2016 17.1% dos bebés nasceram sem que os pais coabitem. Esta situação não parece decorrer de motivos como emigração mas de uma opção para alguns casais, manter relações “estáveis e duradoras” mas vivendo em casas separadas constituindo na expressão da demógrafa Maria João Valente Rosa, as “famílias solitaristas”. Esta opção é já mais frequente noutras paragens sob a designação “living apart together”.
Como se tem vindo a verificar a parentalidade deixou de se associar ao casamento, 52% dos bebés nascem fora do casamento e, parece, começa a não estar associada à partilha da mesma casa.
São regulares na imprensa as referências às emergentes e diferentes dinâmicas de constituição, organização e funcionamento dos “novos” agregados familiares acentuando as alterações observadas, algumas das quais desencadeando enorme discussão, como é o exemplo da co-adopção por casais homossexuais em que se misturam valores e ciência para sustentar diferentes entendimentos.
No entanto, do meu ponto de vista, quase sempre me parece que as diferentes abordagens não valorizam, por vezes nem referem, um aspecto que entendo relevante e que considero dos mais complexos desafios sociais que actualmente enfrentamos, a educação familiar, ou seja, o que é, o que deve ser, como deve ser a educação familiar em contextos altamente diferenciados e em mudanças permanentes.
Esta minha questão releva do entendimento de que independentemente da configuração a família, a educação familiar, é um bem de primeira necessidade para todas as crianças.
A verdade é que as enormes alterações que temos vindo a constatar no universo das famílias implicam uma séria reflexão sobre as suas implicações e impacto na educação familiar. O paradigma clássico, a família educativa e a escola instrutiva, mudou substantivamente o que não significa, obviamente, a alienação do papel educativo da família, mas sim atentar nas novas qualidades que esse papel vai assumindo, parafraseando Camões.
Desde logo porque, por questões de logística e funcionalidade, o tempo familiar para as crianças encolheu de forma dramática, os miúdos passam tempos infindos na escola sob um princípio a que até o MEC se lembrou de chamar de forma infeliz “Escola a tempo inteiro”. As famílias expressam uma enorme dificuldade em compatibilizar o que ainda entendem ser o seu papel educativo com a pressa e o pouco tempo que assumem ter para o realizar. Tenho conhecido dezenas de pais que se sentem culpados e fragilizados por entenderem que não têm a disponibilidade de tempo e atitude que julgam necessária para os filhos. Esta culpa e fragilidade é, com frequência, a base inconsciente que impede alguns pais de serem consistentes e firmes na definição de regras e limites imprescindíveis às crianças, pois “temem estragar” o pouco tempo que têm com elas devido a um eventual conflito.
Uma outra questão prende-se com o modo e a dificuldade que muitos pais me referem sentir quando lidam com as crianças em situação de “duas famílias” mesmo em separações não litigiosas e com níveis de agressividade por vezes inquietantes. Mais uma vez, as inseguranças e algum sentimento de culpa estão presentes e contribuem para embaraços que levam os pais a pedir alguma ajuda. Como sempre digo, é preferível uma boa separação a uma má família, mas alguns pais sentem-se inseguros para construir cenários de educação familiar com qualidade quando têm a guarda das crianças repartida.
Tem vindo a crescer o número de situações de casais que apesar de separados continuam a coabitar o mesmo espaço ou que nem sequer assumem a separação, criando uma situação de "casados por fora" e "descasados por dentro", poderá implicar, quando existem filhos, algumas ansiedades e inquietações nos pais sobre a forma de lidar com um contexto em que aparentemente existe uma família, quando na verdade já são duas com uma ou mais crianças entre elas.
As crianças são resilientes e acomodam melhor eventuais dificuldades quando estão com adultos que delas cuidam e lhes dedicam afecto.
A experiência mostra, como referi acima, que a educação familiar se constitui como uma área extremamente complexa, não existem dois contextos familiares iguais sendo que, para além de tudo, se trata de um universo extremamente sensível a valores e convicções.
Assim sendo, importa estarmos atentos e procurar disponibilizar apoios e orientações nas situações em que os pais revelam e exprimem mais insegurança e dificuldades e que muitas vezes são fonte de grande sofrimento para todos os envolvidos. Estas situações são bem mais frequentes e graves do que julgamos.
E envolvem famílias de diferentes configurações, umas mais “velhas” outras mais “novas”.